Teocracia, democracia e Midi-chlorians no universo Star Wars

Um dos elementos mais interessantes do rico universo Star Wars, certamente, é a existência da misteriosa Força. É através do uso da Força que jedis e siths desenvolveram telecinese, são capazes de controlar mentes, disparar raios pelas mãos, ter super força e velocidade, destreza sobre-humana entre outros incríveis poderes. A Força está presente em todos os seres vivos do universo e é a responsável por manter o universo em união. É a manipulação desta milenar e misteriosa energia que tornam os jedis e siths seres lendários e raros no universo de Star Wars, e é um dos grandes charmes de toda a saga. Isto até Qui-Gon, no fatídico capítulo I de 1999, explicar para o jovem Anakin Skywalker o conceito de midi-chlorians e alterar nossa percepção sobre o funcionamento da Força. Esta alteração de status da Força e da estética da saga foi um dos principais motivos para, praticamente todos os fãs, odiarem os novos capítulos. Aviso que este post será polêmico, não apenas por tratar sobre religião (como o título sugere), mas também e sobretudo, por tentar enxergar  a lógica por trás desta aparente incoerência entre as duas partes da saga e tentar responder: Afinal, porque raios George Lucas inventou as midi-chlorians? Porquê ninguém mais as cita nos capítulos IV em diante? Não me odeiem por isso.

Midi-chlorians e a ciência Jedi

Segundo a explicação de Qui-Gon a Anakin, as midi-chlorians são formas de vida microscópias que vivem dentro das células de seres vivos. São organismos análogos às nossas mitocôndrias, resíduos de algum outro organismo que incorporou-se no corpo humano. As midi-chlorians não são a Força em si, mas é através dela que os Jedis conseguem se comunicar e manipular a força. Deste modo, quanto maior a quantidade de midi-chlorians dentro do organismo de uma pessoa, maior sua tendencia ou potencial em manipular a Força.

Nesta nova concepção da Força, todo mistério se esvai do universo Star Wars. Os jedis não são mais seres lendários que misteriosamente são capazes de manipular a Força ao seu redor. São pessoas com altas taxas de midi-chlorians que passaram por um treinamento que os permitiram controlar a Força. Esta mudança parece contradizer aquilo que fez Star Wars ser um dos mais importantes obras cinematográficas, mas acredito que a mudança não é mero capricho de George Lucas e nem feita de forma gratuita.

Os capítulos I, II e III apresentam a sociedade da velha república, pré-império de Palpatine. Uma das preocupações deste arco é apresentar como era o universo da saga anteriormente ao golpe e a destruição dos jedis por Darth Vader. Acredito que por isso a tão criticada estética das naves se diferencie tanto da saga original. E acredito que, também por este motivo, foi introduzido o conceito de  midi-chlorians, pois, ele ajudará a criar uma diferença entre o cenário político da republica e do império. Acredito que a imagem geral criada pela república é de um sistema político mais democrático. Mais inclusivo e participativo, até mesmo por isto adota um sistema de “republicano” onde representantes são eleitos.

“Democracia” é um conceito mais complexo do que aparenta, existindo diversas controversas sua características e definições. Mas se adotarmos sua definição mais clássica, datada da antiga Grécia, podemos compreende-la como uma forma de governo onde o poder é exercido pelo “povo”. É claro que nem no universo Star Wars, e nem mesmo na antiga Grécia, o poder era de fato exercido por todos os cidadães submissos a organização política. Mas a ideia central da democracia estabelece certa igualdade de condições e acessos aos cidadãos. A antiga república não era democrática apenas por eleger senadores representantes dos povos que a compunha, mas também e sobretudo, por ter uma estrutura que democratize seu acesso e sua gestão. Os jedis, por exemplo, apresentavam-se como um poder moderador, responsável pelo equilíbrio da força. E a inclusão de novos jedis se dava por meios democráticos e mais inclusivos.

É neste contexto em que o termo “Academia Jedi” é utilizado. Por mais que a vida jedi fosse organizada em “templos”, todo ensinamento de novos pupilos era mediado por essa organização acadêmica, quase escolar. A Academia Jedi não utiliza métodos religiosos, pelo contrário, são métodos e ensinamentos científicos. A próprio introdução de um novo membro à ordem Jedi é realizado com a ajuda de um simples exame de sangue, a fim de contar a quantidade de Midi-chlorians no organismo. Ser um “jedi” não requer exclusivamente uma pré-disposição ou algum tipo de escolha celestial, nascer com bastante Midi-chlorians ajudará, mas é o ensinamento da academia Jedi que, ao fim das contas, lhe tornará um verdadeiro Jedi. Algo pouco romântico, é verdade, porém mais racional e democrático. O próprio código de ética Jedi reflete bem essa concepção secular, pouco apaixonada e bastante cientificista:

Não há emoção, há a paz.
Não há ignorância, há conhecimento.
Não há paixão, há serenidade.
Não há caos, há harmonia.
Não há morte, há a Força.

Acredito, então, que a introdução das Midi-chlorians na saga serviu como forma de “desmistificar” os jedis, dando-lhes uma aparência mais científica e sobretudo inclusiva, tornando a ordem condizente com a estrutura política da antiga república. Acredito que, pelo mesmo motivo, se dará um foco maior aos Cristais kyber, a matéria prima dos sabres jedis, sobretudo no universo expandido da saga, assunto bastante nebuloso nos três episódios mais antigos.

O império teocrático de Lord Vader

Após o episódio III, o surgimento de Darh Vader e o extermínio da Academia Jedi e seus membros, não ocorre mais nenhuma menção aos Midi-chlorians, a Força torna-se algo nebuloso, enigmático. Os poucos capazes de manipula-la são ditos como lendas, seres místicos e o poder da força passa a se opor ao poder da burocracia e da tecnologia. Esta visão fica clara durante um diálogo entre Darh Vader e um dos operadores da Estrela da Morte, durante o capítulo IV. Ao ouvir que a Estrela da Morte é a maior força do universo, Darth Vader ironiza seu interlocutor, dizendo que o poder da tecnologia não é capaz de competir com o poder da Força. Este retruca dizendo:

“Não tente nos assustar com suas feitiçarias Lord Vader. A sua devoção doentia à antiga religião não nos ajudou a descobrir as fitas de dados roubadas, nem lhe deu clarividência para encontrar a fortaleza dos rebeldes… ”
e então é sufocado pelo poder sombrio de Vader, que pronuncia sua famosa frase:
“Eu acho perturbadora a sua falta de fé”.

Mais evidências desta nova visão da Força aparecem ao longo dos demais filmes, inclusive nos comportamentos de Obi-Wan e Mestre Yoda. Han Solo se refere aos Jedis, já no recente capítulo VII como “histórias reais”, evidenciando seu aspecto mítico. E no mais recente filme – quando este post foi escrito – Rogue One, temos o personagem Chirrut, um monge guerreiro que, literalmente, reza para a Força. A capacidade de controlar a Força não é mais descrito por fórmulas biológicas, não é mais analisado por meio de um exame de sangue, é uma capacidade divina, alcançada por alguns poucos escolhidos. O esquecimento das Midi-chlorians seria, portanto, um método de mitificar os jedis e siths, os reinterpreta-los como “escolhidos pela força”, tornando a ordem mais fechada e bem menos inclusiva.

Esta contradição de visões reflete a mudança política pela qual o universo Star Wars passou: de uma república democrática para um império quase teocrático. Teocracia é um sistema de governo onde as ações e decisões políticas são tomadas tendo em vista uma religião ou diretamente por algum membro influente desta religião, como um papa ou sacerdote, neste caso, um Lord Sith. Se o poder moderador da Academia Jedi era mais democrático e participativo, já que a introdução de novos membros era feita por um método mais inclusivo, a participação do “alto clero da força” era completamente anti-democrática. Não apenas porque a visão da Força tornou-se mais nebulosa, menos exata e mais mística, estando presente em alguns e não em outros pela simples vontade divina, mas também porque Vader impedia a ascensão de novos discípulos. O Lord do lado negro, basicamente, monopolizou o uso da Força, o uso da Fé, e se intitulou o único representante dela no universo. Seu poder sobre o destino político é, portanto, legitimado por forças superiores a todos, inclusive a ele próprio.  Uma dominação bastante semelhante àquela existente nas monarquias e na inquisição medieval, onde os reis e inquisidores justificavam seu poder como “dádivas divinas”, eles eram os escolhidos por Deus. Não é atoa que os únicos seguidores de Darth Vader capazes de manipular a Força, introduzidos na série animada “Star Wars Rebel”, levam a emblemática denominação de inquisidores. Esta época de nossa história também ficou conhecida como “era das trevas”, que remete uma ideia bastante semelhante aos “tempos sombrios” do império galático.

Conclusão e algumas ressalvas

Não estou aqui dizendo que George Lucas fez uma inversão genial ao introduzir o conceito de Midi-chlorians nos três primeiros capítulos da saga e nem estou dizendo que os filmes são depreciados de forma injusta. O roteiro ainda apresenta alguns furos, os defeitos especiais são terríveis e os novos personagens são enfadonhos. Mas acredito que o conceito de Midi-chlorians foi precocemente rejeitado pelo público. Ele não se encaixa na narrativa original, é verdade. Mas não se encaixa, talvez, de forma proposital. Apesar disto a crítica a uma dominação à partir do capítulo IV é bastante óbvia, mesmo sem relacionar ao sistema de governo da antiga república. Importante também ressaltar que o universo Star Wars é influenciado pelos elementos dos mais diversificados. Impossível ignorar, por exemplo, a influência do ascetismo, do budismo e da filosofia oriental na criação do código de ética Jedi. Que foram ignorados nesta breve análise apenas por questões práticas. E também para evitar que eles contradigam minha opinião.  Outras interpretações são, obviamente, possíveis e bem vindas nos comentários.