O que macacos, computadores e replicantes nos dizem sobre a humanidade

Alteridade é o nome da capacidade de nos colocarmos no local de outra sociedade, classe ou cultura. É colocarmos em oposição, sem pré-julgamentos, aquilo que somos e aquilo que são os outros, compreendendo tanto um quanto outro. Usar desta postura para refletir sobre aquilo que nos define não é exclusividade da ficção científica mas, como uma ficção especulativa, ela possuí o privilégio de poder imaginar um “não nós” e criar situações que nos permite questionar: “afinal, o que nos torna humanos?” Ao nos compararmos com androides, ciborgues, inteligências artificiais, animais inteligentes, alienígenas e etc, podemos não apenas compreende-los mas, e sobretudo, compreender nós mesmos, identificar a “essência” da humanidade (se é que, de fato, ela exista). Esta pergunta cerne que a antropologia titubeia para responder – justamente pela inexistência de outros seres inteligentes e “não-humanos” – tornou-se a questão de diversas obras, como o recém lançado Blade Runner 2049. Mas a temática perpassa diversas outros títulos da literatura e do cinema de ficção científica. Neste post abordaremos como essa questão é respondida em 3 diferentes obras: Blade Runner e sua recente sequência, 2001: uma odisseia no espaço e sua sequência  e a série Planeta dos Macacos.

A humanidade enquanto experiência em Blade Runner

A compreensão da identidade e do real é o tema central da bibliografia de Phillip K. Dick. Ao adaptar o roteiro de “Androides sonham com ovelhas elétricas?” Ridley Scott manteve esta essência – sobretudo na versão final – ao transpor como eixo central do filme o questionamento sobre a humanidade. Ao contar a história de humanos sinteticamente produzidos, os replicantes, o roteiro permite o questionamento daquilo que nos diferencia deles. Se formos capazes de recriar humanos sintéticos, qual a distinção entre eles os humanos “naturais”?

A vida e a “humanidade” se perdem, e também os momentos vividos, como lágrimas na chuva.

Na trama os replicantes são, em tese, incapacitados de sentirem sentimentos. Como garantia que isso não ocorra eles são programados para viverem por apenas quatro anos. Esse curto espaço de tempo, entretanto, tornou-se o suficiente para que sentimentos começassem a ser produzidos através das experiências vivenciadas por eles. A empatia a seus iguais e o conceito de auto-estima criaram sentimentos a ponto dos replicantes lamentarem a morte precoce e procurarem uma possível “cura”. Várias passagens ao longo do filme marcam essa mudança na essência dos replicantes: o choro de Rachael e sua posterior paixão com Deckard, a empatia existente entre os replicantes, o medo que eles dizem conviver, até a clássica cena final das lágrimas se perdendo na chuva. A humanidade parece estar intimamente ligada ao conceito de “identidade”, este por sua vez ligado às experiências vividas entre seus iguais. Por isso a importância que o filme dá às fotografias, são registros de antigas memórias, que marcam experiências vivenciadas num passado, experiências que definem a identidade e caracterizam a própria humanidade. Não atoa que, ao implantar memórias falsas, vivenciadas por outras pessoas, os replicantes tornam-se ainda mais humanos, perdendo até mesmo a compreensão de sua criação sintética.

Este conceito é reforçado e expandido no novo filme, Blade Runner 2049 de Denis Villeneuve. Nele, não apenas existe um grande foco sobre a questão das lembranças como também somos apresentados a uma nova categoria: seres holográficos, as “namoradas virtuais” Joi. Podemos fazer uma reflexão em dois sentidos, as Joi’s funcionam como uma ferramenta de se criar “empatia”, algo semelhante ao papel dos animais elétricos e da religião Merceirismo apresentados no livro, dando às pessoas mais experiências e, portanto, restaurando a humanidade perdida em um mundo degradado e consumista – ironicamente através do próprio consumo. Mas, ao mesmo tempo, as próprias Joi’s caracterizam-se enquanto humanas, afinal guardam memórias das experiências vivenciadas junto ao seu “dono”. O roteiro ressalta, inclusive, que a “essência” da mulher holográfica, encontra-se em seu banco de dados. Ao apresentar um romance de um replicante e um holograma o filme reforça que a “humanidade” é adquirida através das experiências, pois mesmos seres sintéticos são capazes de reproduzir sentimentos tipicamente humanos através de suas vivências sociais.

A humanidade enquanto consciência em 2001

Outra obra da ficção científica a tratar de forma sútil, porém bastante impressionante, a questão da humanidade é o filme e o romance “2001: uma odisséia no espaço” e, sobretudo, sua sequência cinematográfica/literária “2010: o ano em que faremos contato”. Neles somos apresentados ao HAL 9000 um computador dotado de uma impressionante inteligência artificial, produzido para gerir os recursos e operar a nave Discovery, rumo a Jupíter para investigar a presença do monolito.

Já no primeiro filme é possível identificar características humanas em HAL, sua curiosidade, sua animação ao fazer parte da missão e trabalhar com “humanos reais” e sobretudo sua melancolia e quase desespero ao ser desativado. Parte dessa humanidade é reproduzida por Stanley Kubrick ao adotar uma câmera introspectiva, filmando através do ponto de vista do computador.

Star Child seria, talvez, a essência da humanidade?

Mas a melhor reflexão é feita em sua sequência “2010: o ano que faremos contato” sobretudo em sua versão escrita. Ao fim da trama a nave Discovery, onde se encontram HAL 9000 e seu criador Dr. Chandra, é engolida pelos monolitos e seus tripulantes, assim como no fim de seu antecessor, transformam-se em “crianças das estrelas” e voltam à terra numa forma superior de vida. Desde o fim do título anterior sabíamos que os humanos poderiam “evoluir” sua essência ao terem contato com a tecnologia do monolito. A grande surpresa é que não apenas Dr. Chandra desprendeu de seu corpo, como o próprio HAL tornou-se também uma espécie de entidade superior. Ou seja, do ponto de vista dos criadores do monolito, a inteligência artificial de HAL 9000 é indistinguível de uma ser-humano. Nos permitindo refletir: o que nos caracteriza enquanto humanos é nossa inteligência, nossa capacidade de refletir, em última instância, nossa auto-consciência. Uma visão racionalista e Descartiana. Neste sentido uma inteligência artificialmente projetada não se distinguiria em nada de um humano real.

A humanidade enquanto conceito social em Planeta dos Macacos

Por fim, ainda podemos refletir sobre um outro conceito, introduzido pela obra “Planeta dos Macacos”, tanto o livro original quanto a série de filmes, inclusive os mais recentes. Na trama deste universo um grupo de cientistas pousam em um planeta dominado por macacos inteligentes. Os macacos reproduzem praticamente todos os hábitos humanos, usam roupas, falam, usam instrumentos, pensar por base científica e assim por diante. Enquanto os humanos deste universo se comportam como animais, vivem em matas, andam nus, não conseguem utilizar a fala para se comunicarem.

A princípio o filme parece fazer uma reflexão bastante simples entre a dicotomia natureza e cultura. Onde a humanidade parece ser uma derivação da capacidade comunicativa e de produção cultural. Mas, ao ser preso entre os “animais humanos” o astronauta Taylor tem dificuldade em convencer os demais símios de que ele é um ser dotado de inteligência, mesmo dando provas linguísticas e lógicas. Apesar de seu comportamento próximo àquilo praticado pelos macacos, Taylor não consegue convencer os órgãos oficiais, sobretudo os orangotangos, de que ele é um ser digno de “simealidade” – a “humanidade” vista pela perspectiva de um mundo dominado por símios.  E passa a ser perseguido pelos macacos por ser uma espécie de ameaça aos conceitos sociais estabelecidos de até então: humanos são animais e macacos são dotados de “humanidade” – ou “simealidade”.

Neste ponto de vista não importa as experiências vivenciadas, ou a capacidade de reflexão, Taylor tinha ambos, o que importa, de fato, é como a sociedade define, compreende e opera o conceito de “humanidade”. Ser humano, neste contexto, é ser reconhecido e aceito enquanto tal dentro de sua respectiva sociedade. A “humanidade” não seria algo fixo ou dado pela natureza, mas sim uma construção social e discursiva, carregada de significados e permeando os conflitos e a luta pelo poder de construir a “verdade”, enquanto uma categoria genealógica, descrita pelo filósofo frânces Michel Foucault. E se, compararmos a série antiga com a nova trilogia, vemos que os papéis estão invertidos. Mesmo dotados de razão e capazes de se comunicar pela fala, é negado aos macacos a essência da “humanidade”. Pois eles representam uma ameaça e instabilidade ao conceito existente de até então e, consequentemente, uma ameaça a quem detém, historicamente e socialmente o poder de definir quem é, ou não, humano.

Um gênero privilegiado para a reflexão

Como disse, a ficção científica, enquanto um gênero especulativo, acaba ocupando uma posição privilegiada para discutir essas questões. Diversas outras obras abordam ou tangenciam a questão essa questão da humanidade. Como por exemplo os livros “Eu sou a lenda” e “Guerra dos Mundos” que já receberam textos neste blog sobre essa questão, aqui e aqui. Como também toda a série robótica de Isaac Asimov, muitos episódios das diversas séries de Star Trek, a série Black Mirror, o filme “Sob a pele” e muitos outros. E você? Lembra-se de alguma obra que contribua para essa discussão? Nos conte nos comentários!