Machismo, estrutura social e dominação masculina em “O conto da Aia”

Alguns livros são lidos por despertarem boas sensações, por nos distraírem, por serem bem humorados e pelo seu efeito escapista da realidade, muitas vezes cruel, que nos rodeia. “O conto de Aia”, escrito por Margaret Atwood em 1985, não poderia distanciar-se mais desta preposição. O livro é incômodo, doloroso, angustiante, quase cruel com seu leitor, o jogando de cara, e sem nenhum conforto, na realidade sombria do mundo. Não o mundo existente, é verdade, mas um mundo “inflado” em seus defeitos e horrores, uma distopia que amplifica, sem nunca se afastar, da realidade vivenciada por muitas mulheres. Mas mesmo assim o lemos, por ser uma ótima experiência de empatia – sobretudo para homens – e alteridade, além de nos oferecer uma excelente oportunidade para refletir um pouco sobre como opera o machismo e a dominação masculina em nossa sociedade. E é justamente este o foco deste post.

Uma distopia patriarcal e teocrática

Capa da versão brasileira, republicada pela editora Rocco.

O livro relata, sob o ponto de vista e da memória de Offred  o modo de vida e a organização social da República de Gilead, estado surgido através de um golpe à constituição norte-americana, durante um momento de conturbação social. Gilead é um estado totalitário, conservador e teocrático, os ideais constitucionais foram suprimidos em função dos princípios bíblicos, sobretudo do antigo testamento. Implantou-se, deste modo, uma estrutura social bastante repressiva, sobretudo às mulheres, que perderam seu direito civil – inclusive o nome verdadeiro – e tornaram-se, basicamente, propriedade de seus senhores. As mulheres mais baixas na estrutura social, e as ditas “pecadoras”, como as divorciadas, viraram “aias”, uma espécie de servas sexuais que detinham a função de gerar uma prole de seus senhores, classe da qual a narradora Offred faz parte. Ao longo de suas mais de 300 páginas somos introduzidos à esse universo patriarcalista, através de capítulos desconexos e memórias da protagonista, que aos poucos completa uma quebra-cabeça a nos mostrar a profundidade e os detalhes operacionais desta teocracia conservadora.

A principio parece que estamos diante de uma “distopia feminista” onde o poder masculino absoluto se exerce em sua totalidade e fisicalidade sobre os corpos femininos. Mas, num entrevista dada ao the guardian Margaret Atwood nega o rótulo, dizendo que a distopia é construída através de uma pirâmide social, onde existem homens e mulheres em cada um dos estratatos, – sendo o homem o detentor de maior poder em relação à mulher de seu mesmo estrato, obviamente. Parece uma diferença sútil, mas ao interpretar a dominação masculina deste universo num viés socio-cultural, a autora o aproxima de nossa realidade e nos permite usar o romance para compreender como o machismo opera em nossa sociedade.

Dizer que  livro não é uma “distopia feminista” não é negar a existência do machismo e do patriarcalismo na obra, mas aproximar a dominação masculina à existente em nossa sociedade, distanciando daquele “modelo ideal” propagado pelo senso comum. É comum a compreensão de que o “machismo” é o comportamento de ódio ou total desprezo às mulheres. O machista, segundo essa visão, seria um homem absolutamente controlador, violento, e desrespeitoso com as mulheres, que as interpreta como inferiores em todos os momentos. Uma concepção tão estreita que as pessoas que a acreditam, se negam a admitir que nossa sociedade é de fato machista, por não enxergarem as manifestações mais sutis e cotidianas.  “O conto de aia” nos mostra uma dominação masculina que não se dá unicamente pela coerção física, não existindo uma distinção absoluta entre espaços e poderes femininos e masculinos. Existindo, inclusive, mulheres que não apenas ocupam espaços da alta sociedade como concordam e reproduzem o patriarcalismo. Isso não significa que as mulheres sejam cúmplices ou igualmente culpadas do machismo, mas sim que este preconceito é tão profundo e cultural, que se reproduz, mesmo entre suas vítimas.  A obra pode nos fazer refletir como o machismo é profundamente enraizado em nossa sociedade, operando, muitas vezes, de maneira inconsciente, em práticas do dia a dia.

A dominação masculina

Cena da adaptação aos cinemas, feita em 1990

Pierre Bourdieu – importante sociólogo, autor do livro “A dominação masculina” – compreende a dominação dos homens perante as mulheres através de uma visão socio-cultural, útil para compreendermos melhor não apenas o universo criado por Atwood como nossa própria sociedade. A grande questão para Bourdieu é que a dominação masculina se faz na reprodução cultural de uma estrutura social desigual, que exclui e subjuga mulheres. Em nossa sociedade, e em Gilead de forma mais radical, existe uma clara estrutura social, construída historicamente, onde homens tendem a ocupar cargos superiores em relação às mulheres. Não apenas economicamente, mas culturalmente e socialmente superiores. Essa estrutura social desigual é passada adiante ao ser ensinada e subjetivada pelos membros da sociedade.  Uma vez introduzida na forma de pensar a estrutura torna-se algo “natural” e inquestionável, transformando-se na “ordem natural das coisas” e reproduzida inconscientemente através daquilo que Bourdieu chama de hábitus. Em outras palavras, a dominação masculina existe objetivamente, de modo concreto, através de uma estrutura social desigual, que privilegia homens. Mas ela se exerce, sobretudo, por vias culturais e sociais, através de práticas inconscientes, tanto de homens como de mulheres. Um exemplo seriam as brincadeiras infantis, que introjeta já nas crianças – meninos e meninas – a demarcação entre símbolos, identidade e espaços femininos e masculinos. De um lado as brincadeiras passivas e/ou doméstica das meninas, as princesas, o cuidar dos filhos, o trato da casa, entre outras, que demarcam a posição inferior da mulher. De outro as brincadeiras masculinas como o carrinho, as profissões, os super-heróis, que marcam a maior importância dos homens em nossa estrutura social. É através desta força do hábitus que a estrutura social é reproduzida e passada adiante, junto de suas desigualdades. A dominação masculina é, portanto, uma dominação objetiva e estrutural ao mesmo tempo em que uma dominação subjetiva e cultural. Se mantendo não pela via da coerção física e do simples medo, mas da naturalização cultural, da subjetivação de valores e regras.

Apesar da dominação em Gilead ser realizada também pelo medo, como as execuções públicas e exposição de cadáveres, ela opera, diversas vezes, de maneira mais sutil, através da introjeção de valores e julgamentos bíblicos. Sobretudo através de momentos de “educação” em rituais e eventos religiosos. Por isso as mulheres mais velhas, que provavelmente cresceram numa educação conservadora e naturalizaram as posições de gênero descritas pelo antigo testamento, não apenas concordavam e contribuíam com o estado totalitário de Gilead, como acreditavam, sinceramente, que estavam em melhor posição em relação à época anterior ao regime teocrático. Isso fica evidente, por exemplo, numa das passagens do livro, onde uma das Aias relata, durante um “Testemunho” um estupro coletivo da qual foi vítima na época pré-ditatorial:

Mas de quem foi a culpa, diz Tia Helena, levantando o dedo roliço.
Dela, foi dela, foi dela, foi dela, entoamos em uníssono.
Quem os seduziu? Tia Helena sorri radiante, satisfeita conosco.
Ela seduziu. Ela seduziu. Ela seduziu
Por que Deus permitiu que uma coisa tão terrível acontecesse?
Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição.

Não é incomum encontrarmos outras Tias Helenas, de ambos os gêneros, em nossa sociedade. Basta lembrarmo-nos da polêmica pesquisa do IPEA sobre a percepção social em torno da violência contra a mulher, onde uma parte bem maior do que o aceitável culpabiliza a vítima em casos de estupro. Este foi apenas um exemplo entre vários presentes no livre, momentos em que personagens reproduzem, através de atos banais muitas vezes, valores que inferiorizam ou subjugam as mulheres.Diria, inclusive, que a maior parte do livro foca-se sobre a opressão cultural e a violência simbólica pela qual as mulheres são vítimas. Desde suas vestes que impossibilitam a visualização do rosto, cobrem totalmente o corpo e distinguem a classe através das cores, até a substituição do nome próprio em função de um nome de escrava, indicado seu senhor, como “of Fred”.

Cena da recente adaptação televisiva, de 2017

“O conto da aia” certamente não é o livro mais agradável para se ler, sua temática pesada sua narrativa fragmentada e seu pessimismo humanitário o tornam uma leitura dolorosa. Por outro lado, é uma obra essencial para ser lida, explora de forma genial um tema de suma importância social, sobretudo em tempos em que o preconceito, a ignorância e a intolerância voltam a crescer. Uma recente adaptação em série televisiva, parece ter trazido o livro novamente ao debate – e também à republicação. Infelizmente parece-me que seu público masculino ainda é minoritário, pois a obra talvez ofereça a representação do sentir-se, ao menos uma pequena fração, daquilo que é ser mulher numa sociedade dominada por homens.