Fé, razão e ciência em “Um cântico para Leibowitz”

Criar um blog de ficção científica, com um título que remete à obra de Asimov, pode gerar a falsa percepção que seu autor – no caso eu – seja um enfático secularista, militante do ateísmo ou crente de que a fé aliena o senso crítico. Criar um livro de ficção científica com um título, ambientação e enredo que se remetam à ordem religiosa e à fé católica pode criar essa mesma falsa percepção. Basta ler algumas páginas do livro – e espero esse post – para afastar tais visões. Pois a clássica e premiada obra de Walter Miller (assim como esse não clássico, muito menos premiado post) passa longe de ser uma crítica à religião, ou glorificação da ciência.

Capa da edição dos anos 80, distribuída pelo Clube do Livro

Um cântico para Leibowitz é uma obra densa, tortuosa e subjetiva. Escrita por um autor igualmente ambíguo e de vida tortuosa: Walter M. Miller Jr, que vivenciou a guerra como soldado -na qual foi obrigado a destruir um templo cristão durante um bombardeio, sobreviveu e converteu-se ao cristianismo, formou-se em engenharia, ganhou prêmios como escritor, tornou-se um recluso social após a morte de sua esposa e deu fim à própria vida aos 72 anos de idade. Talvez a profundidade e complexidade de sua obra não permita correlações exatas, muito menos compreender a exatidão de seu significado, mas lança ao longo de suas mais de 300 páginas divididas entre 3 partes, muitos questionamentos e reflexões. Sobretudo ao tema deste post: fé, razão e ciência.

Ciência e religião contra a barbárie

Apesar de ser um clássico da ficção científica, mais especificadamente da distopia pós-apocalíptica, o livro, em sua maior parte, assemelha-se mais a um romance histórico. O autor abusa de passagens e termos em latim e a ambientação reproduz de forma muito eficaz, acredito eu, um convento da idade média. Isto porque a sociedade do futuro século XXVI, que serve como palco da narrativa, assemelhasse a antiguidade clássica. Após um holocausto nuclear dizimar boa parte da população e destruir por completo os meios materiais, grupos autodenominados “simplórias” começaram uma caçada à toda forma de conhecimento, sobretudo científico, que julgavam como o responsável pela guerra.  Coube, ironicamente, a um grupo religioso, os tais seguidores de Leibowitz, o encargo de coletar e proteger os vestígios de documentos e escritos técnicos e acadêmicos da fogueira da “simplificação”.

Nesta primeira parte do livro percebe-se uma inversão de expectativas – ao menos das minhas expectativas. A ciência e o conhecimento como um todo foram os culpados pela criação e uso das bombas nucleares. Compreensivo apesar dos pesares. Mas a oposição ao “pensamento moderno” não foi o tradicionalismo religioso. Ao contrário. Os “simplórios” se opunham a qualquer visão que reivindique uma razão ao analisar a humanidade. Qualquer reflexão que retirasse o homem de seu marasmo de caçador-coletor era vista como perigosa, rejeitavam qualquer forma de conhecimento e enojavam qualquer demonstração de erudição. Deste ponto de vista a religião e a ciência não se opunham, ambas eram detestadas pela barbárie dos povos simplórios.

Capa da edição mais recente, lançada pela editora Aleph

Se os monges ocupavam-se em proteger e levar as palavras da verdade e da salvação, a base da igreja católica fundada por Pedro, os monges de Leibowitz faziam o mesmo com as palavras da verdade científica, escrita por seu mestre, o próprio Leibowitz e os demais cientistas. Afinal, o que é a ciência, se não um conjunto de conhecimentos e crenças que procuram explicar e compreender o mundo que rodeia o homem e ele próprio? Assim como a própria religião, que cria uma narrativa explicativa do mundo. Deste modo a ordem católica de Leibowitz apenas seguiu o plano original da igreja: Guardar, proteger e propagar as palavras da salvação, para retirar o homem de sua barbárie. Este aspecto, ao meu ver, marca bem um dos principais trunfos do livro: o trato respeitável entre as duas formas de conhecimentos, até mesmo, acredito, pelo histórico da vida de Walter Miller.  Ciência e Religião não operam por vias distintas.

Existem, obviamente, diferenças significativas entre a lógica religiosa e científica. Se a finalidade é a mesma, o processo é quase o oposto. Entretanto é preciso relembrar que o holocausto nuclear devastou quase por completo toda a base material e os monges de Leibowitz pouco, ou nada, compreendiam do método científico. Interpretavam as plantas e os projetos de motores como escrituras sagradas, que guardavam a verdade secular, porém inacessível ao homem, assim como muitas das palavras divinas. Deste modo os monges acumulavam os escritos numa coletânea denominada “memorabília”, que passa a ter um maior valor enquanto forma do que conteúdo, já que pouco lhes era acessível. Não à toa que o personagem principal da primeira parte do livro dedica-se anos ao embelezamento e arabescos de um projeto escrito pelo próprio Leibowitz, que adquire papel de relíquia. Leibowitz, inclusive, é retratado de forma bastante curiosa. Apesar do personagem já estar morto por centenas de anos, desde o início do livro, o autor insinua que sua vida havia sido bastante banal, um cientista comum entre seus iguais. Não seria assim também com Jesus Cristo? Os monges cultuavam a ciência e toda forma de conhecimento que se remeta ao planejamento científico, mas operavam pela fé e não pela razão. Acumulavam e protegiam a memorabília de invasões bárbaras apenas pela fé de que, algum dia no futuro, os escritos fariam sentido e a humanidade, aí sim, utilizaria da razão e da sapiência para revitalizar o mundo.

Ciência e religião pela barbárie

O livro é estruturado em 3 tempos distantes em 600 anos cada um. O primeiro, quando as primeiras relíquias científicas são resgatadas, o segundo retrata o ressurgimento dos cientistas e o renascimento da sociedade, no terceiro e último a tecnologia foi recuperada e a humanidade encontra-se à beira de uma nova guerra nuclear. E é neste último que se encontram as melhores reflexões de Walter Miller.

Mesmo passando por uma catástrofe que deixou sequelas por milhares de anos, como a má formação genética, a humanidade não parece ter apreendido com seus erros e os repete. Neste futuro a ciência ressurge e instituições acadêmicas laicas se afastam da organização religiosa. Deste modo os dogmas religiosos reaparecem de forma mais autônoma e destacada de sua face científica. Mesmo assim, é a ordem de Leibowitz a responsável por manter novamente seguro todo o legado científico da memorabília – que ficou séculos sob sua proteção – desta vez a enviando para outra galáxia, numa missão espacial. Enquanto isso a Terra arde novamente em chamas e radiação, numa clara referência à descida de Lúcifer. Mais uma vez a visão religiosa e científica complementam-se, mas pouco fazem para impedir que o uso irrestrito de ambas gere sofrimento e mortes.

A sociedade bárbara pós-holocausto era violenta e cruel por não possuírem a racionalidade e, consequentemente, não serem capazes de deter o controle de suas forças instintivas. Numa passagem do livro, inclusive, é relatado que os povos nômades utilizavam o sangue humano como bebida, sem nenhuma justificativa simbólica ou religiosa, apenas por ignorância. Séculos depois, porém, a nova sociedade pós-redescobrimento científico continuou violenta e cruel, desta vez por utilizar a ciência e a religião de forma inconsequente.

Se a ciência – e penso que assim seja o pensamento religioso – existe para emancipar o homem de seus próprios limites, seu uso como uma visão intransigente de “uma verdade em si própria” ou não reflexiva, que não reflete ao próprio homem, apenas dá à humanidade um poder sem responsabilidades. A ordem de Leibowitz resgatou a ciência, mas aprisionou-a numa caixa preta, num ambiente fechado, inacessível às pessoas e, portanto, estéril de discussão. A ciência tornou-se um novo mito, um dogma, uma verdade por si só. Ao ser trazida à superfície ela se desenvolveu, mas seus avanços nunca foram questionados, ao ponto em que a sociedade se viu, novamente, à beira de um novo holocausto nuclear. Um uso bastante indevido, que agora me remete às manchetes sensacionalistas iniciadas por: “Ciência comprova que…” ou então “… dizem os cientistas”.

Caminho semelhante foi traçado pelo pensamento religioso. Ao apartar-se da ciência – mas não em decorrência disso – os dogmas religiosos readquirem seu caráter (muitas vez) excludente. Nesta terceira parte do livro, temas de cunho religioso, anteriormente ausentes ou desdenhados pelos próprios monges, ganham maior destaque, como a repressão sexual e o combate ao suicídio, manifestado pela contrariedade à eutanásia. Esta última é sugerida por médicos do governo para pacientes diagnosticados como “fatalmente exposto à radicação”, recebendo a crítica e a resistência entre os monges de Leibowitz. Sendo intransigentes até mesmo no caso de um bebê de poucos meses, que sofria de dores à espera de uma morte lenta e dolorosa, em nome de uma tradição religiosa, pautada numa escrita “verdadeira por si só”.

É deste modo que Walter Miller nos convida a refletir sobre as divergências mas também, e sobretudo, as convergências entre o pensamento religioso e científico. Uma reflexão que desencadeará, invariavelmente, aos agentes humanos e à própria noção de humanidade e aquilo que nos constrói, a razão e a fé. O fim desta narrativa reflexiva é agoniante, sufocante, perturbadora e ambígua – ainda me questiono se o final é uma fé otimista ou uma razão pessimista. Mas é certo que no fim das contas não foi a ciência a responsável pela guerra nuclear, como imagina os simplórios, que logo caíram à barbárie, assim como não será a religião pela sua salvação. E vice-versa. É o próprio homem em sua face mais ignorante, que operaliza os conhecimentos para subjugar seus iguais, ao invés de emancipar-se. Que se recusa a dialogar e refletir sobre seus atos e pensamentos, que utiliza a fé e a razão como mera justificativas para seus atos e não instrumentos para a mudança. Seja o ato de fabricar bombas atômicas para se produzir a guerra ou o ato de impor a dor ao corpo enfermo do doente, lhe negando o direito à morte em nome de um dogma religioso, o homem se desvia das “palavras da salvação”. Talvez a mensagem de Walter Miller seja a denúncia de que foi a humanidade e seus atos que matou-se, que continuou a se matar e que continuará se matando. Sic transit  mundus… [Assim o mundo passa]