Carl Sagan, Drummond e a máquia do absurdo em “Contato”

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Estes são alguns dos versos iniciais do incrível poema “A Máquia do Mundo”, escrito pelo poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. As rimas acompanham o próprio poeta caminhando numa “estrada pedregosa de Minas” quando se depara com a “Máquina do Mundo”, um mecanismo capaz de revelar todos os segredos e explicar todos os conhecimentos do mundo. A ideia de um ser banal, comum entre os demais, ser iluminado por uma entidade capaz de lhe transmitir conhecimento é tema recorrente da literatura. A lenda alemã de Fausto, retratado pelo escrito Goethe, por exemplo, retrata a busca pelo conhecimento pelo Dr. Fausto, que vende sua alma para o demônio Mefistófeles na procura de superar os conhecimentos humanos de sua época. 2001: uma odisséia no espaço também aborda a busca pelo conhecimento mediante o contato com um artefato alienígena. Foi uma surpresa, porém, encontrar certas similaridades do poema de Drummond no único romance escrito pelo divulgador científico Carl Sagan: Contato.

A vontade de conhecer

O livro “Contato”, assim como sua excelente adaptação cinematográfica dirigida por Robert Zemeckis em 1997, narra a história de Ellie Arroway, pesquisadora do projeto SETI (Busca por inteligência extraterrestre, numa tradução livre), que recebe uma mensagem em código partida, possivelmente, de uma inteligência extraterrestre.

Representação da máquina projetada pelos alienígenas na adaptação cinematográfica.

Ao longo da trama descobre-se (e isso será um grande SPOILER) que o código é, na realidade, instrução para a construção de uma espécie de máquina. A curiosidade e a vontade de conhecer levam os cientistas a construírem aquilo que eles julgam ser uma espécie de máquina de teletransporte ou uma ferramente para se abrir um portal para o longínquo, mesmo sem conhecerem os reais riscos e, sobretudo, as intenções de seu interlocutor. De um lado temos o impulso humano da sede de conhecimento, a vontade de compreender “a total explicação da vida”  como diz Drummond em seu poema, do outro uma máquina, produzida por uma inteligência, existência ou ser superior, uma artificialidade capaz de mediar nossa percepção à realidade lógica do universo. Interessante o fato do instrumento ser representado enquanto uma máquina, (muito mais em Drummond do que em Carl Sagan) uma construção racionalmente e cientificamente projetada, e não como uma luz ou instrumento divino ou metafísico. Isto implica, ao meu ver, uma concepção de realidade lógica e empírica do universo, segundo Drummond a máquina seria capaz de revelar as “estranhas ordens geométricas de tudo”. Ou seja, a realidade das coisas são acessíveis e inteligíveis ao pensamento moderno e científico, ao menos em tese. E é seguindo tais esperanças que um grupo de cientistas embarca na máquina projetada pelos alienígenas.

A incapacidade de compreender

A máquina alienígena funciona, ao menos para seus tripulantes – já que, visto do exterior, ela manteve-se no mesmo local – que foram “teletransportados” para centenas de anos luzes de distância, viajaram entre os astros e passaram por uma experiência de contato com entes queridos já falecidos. Apesar de algumas respostas obtidas a expedição não teve, de fato, acesso ao conhecimento alienígena e ficou longe de compreender o funcionamento do universo. Isso porque os limites da mente humana, naquele momento, impediam a compreensão total do conhecimento existente. Isso levou às autoridades a questionarem a expedição e levantarem a suspeita de fraude, já que nada além de experiências emocionais foi coletada pelos tripulantes. Mesmo o mundo sendo constituído de forma lógica, racionalmente compreensível pelo método científico – afinal, as instruções para a construção da máquina eram científicas – aquilo que os humanos foram capazes de captar eram fragmentos desse conhecimento, indistinguíveis, muitas vezes, de sentimentos e crenças subjetivas. A “verdade”, mesmo existindo, é inacessível em sua totalidade para a vã realidade humana. Talvez já sabendo disto Drummond nega, em seu poema, todo o conhecimento oferecido pela máquina do mundo.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

(…)

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

O absurdo

O “absurdismo” é uma corrente filosófica criada pelo filósofo e escrito franco-argelino Albert Camus. Ele descreve o “absurdo” como a contradição existente entre o impulso humano de encontrar ou atribuir alguma razão inerente à vida e a incapacidade humana de alcança-la. Estaríamos sempre procurando a razão de nossa existência, mas jamais a obteríamos de fato, pois o mundo não as oferece de forma compreensível a limitada capacidade humana de compreensão. Enquanto o niilismo nega a existência de qualquer sentido para a existência, o absurdismo apenas a compreende como inalcançável às pessoas. Opondo-se também a postura pessimista deste último, Albert Camus acreditava que abraçar o absurdo, ter noção dos limites de nossa compreensão,  é a melhor forma de tocarmos a própria existência, a dotando de razões que valham a pena. Sem cair, contudo, aos reducionismos existenciais como a esperança de pós-vida em paraíso ou ao suicídio.

Drummond admirando o absurdo da existência, ou não, sabe-se lá.

E o que seria o desejo de conhecer as regras que controlam o universo, a realidade que rege os padrões empíricos e a verdade universal se não a própria busca pelo sentido da de nossa existência? Neste sentido a invenção alienígena e a máquina do mundo seriam promessas de respostas jamais suficientes, jamais completamente acessíveis. Os cientistas iludidos pela promessa de tudo conhecer se deixaram frustrar por uma realidade excessivamente complexa às suas mentes. Enquanto Drummond, como um velho poeta já “desenganado” e com “pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto, e pela mente exausta de mentar” resolve abraçar o absurdo e seguir seu caminho pela “estrada pedregosa” sob o “céu de chumbo” de Minas Gerais.