Asimov, Maquiavel e a história cíclica

Isaac Asimov

Quando comecei a ler ficção científica cometi um erro interpretativo que acredito ser bastante comum entre leitores que estão entrando no gênero: avaliar a qualidade de uma obra pela sua capacidade premonitória. Essa tendência acaba reduzindo todo o gênero numa simples tentativa de prever as tecnologias, organizações sociais e acontecimentos futuros. Nesta concepção um bom livro seria aquele que antecipa, de forma visionária, novas ferramentas e métodos, como o submarino e o foguete de Julio Verne; um livro ruim, ao contrário, seria aquele que descreve tecnologias já ultrapassadas em tempos futuros. Por mais que o caráter especulativo seja característica importante da ficção científica, ela é capaz de explorar muitos outros elementos, seja dentro de sua forma ou na reflexão propiciada pela trama especulativa. Foi usando essa visão inocente que acabei interpretando errado os primeiros livros de Isaac Asimov lidos por mim. Ao me deparar com tecnologias ultrapassadas há anos ou décadas aplicadas em futuros tão longínquos – a ponto de criarem uma nova contagem temporal – interpretei como um “erro” do “bom doutor”. Não entendia como um cientista de formação poderia acreditar que motor de combustão ou de gás, por exemplo, ainda existiriam em futuros tão distantes. Foi numa conversa com um amigo que compreendi ou acho ter compreendido o real objetivo de Asimov: aplicar seu conceito de história cíclica.

A história cíclica em Asimov

“Pedra no Céu” pode não ser o melhor livro de Isaac Asimov, pode ter alguns problemas de desenvolvimento de personagens, romance desnecessário e uma representação feminina mal feita. Mas talvez seja o melhor livro – até mesmo por ser o primeiro – para se compreender esse importante conceito que, ao meu ver, perpassa todo o universo unificado dos livros do bom doutor. Além da trama em si, que explora a viagem temporal do protagonista, revelar diversas ocasiões onde o futuro se assemelha ao passado, o livro é escrito sob a alegoria do recomeço, não apenas do ponto de vista individual mas também social. Marcado por esse trecho escrito pelo poeta Abraão ibn Ezra:

Envelheçamos agora
O melhor não demora
Para o fim da vida se fez o início…

Dentro do universo criado por Asimov a humanidade se expandiu tanto, e prosperou tanto, a ponto de perder/esquecer aquilo vivido séculos e milênios atrás. Já não se sabe o planeta em que a humanidade surgiu, se quer sabem se ela surgiu, de fato, em apenas um.  Tecnologias são criadas, envelhecem, as esquecem, para depois serem redescobertas. Por mais que os séculos tenham se passado, o futuro Asimoviano parece refletir os mesmos costumes, hábitos e vícios da humanidade. Em “Pedra no Céu”, por exemplo, é abordada a xenofobia propagada entre os humanos de diferentes planetas.

Hari Seldon, personagem de “Fundação”

Essa percepção da história enquanto um ciclo que se repete entre o surgimento-esquecimento-ressurgimento quebra com a noção mais propagada – e assumida pelo senso comum – de história, que é a ideia do progresso. Ao abordar a história numa linha sinuosa, com altos e baixos, loopings e regressos, Asimov nos força a sairmos da noção comum da linha reta em ascensão. A história não é um eterno progresso, até mesmo por não existir um critério universal na comparação entre épocas. Sociedades ditas como “primitivas”, na realidade,  apenas viveram em tempos passados, possivelmente, reproduzindo coisas semelhantes ao que fazemos agora. Por isso em seu livro nossa sociedade pré-viagem intergalática é denominada exatamente como “primitiva”. É uma percepção que exige certa reflexão e desprendimento de “verdades evidentes” que trazemos do berço, por isso tamanha dificuldade em compreender os tais “erros de previsão” em seus livros. Não são erros, são tecnologias propositalmente retrógradas para evidenciar que a história não é uma linha reta. Falar do futuro é como falar do presente, refletir sobre acontecimentos imaginados é como refletir sobre nossos próprios comportamentos.

Maquiavel e a psico-história

Nicolau Maquiavel

A concepção da história enquanto um eterno progresso é hegemônica no senso comum mas também entre os intelectuais pré-pós-modernos (podemos até mesmo pensar que a ideia de progresso está intimamente ligada ao modernismo). Mas a percepção da história enquanto um ciclo já estava presente no pensamento do historiados e filósofo Nicolau Maquiavel. Apesar de hoje ser consumido quase como um “conselheiro para tiranos”, Maquiavel tem uma vasta obra assentada em sua singular compreensão da história enquanto um ciclo. Segundo ele as tradições humanas são tão fortes que fazem a história se repetir. Compreender o passado e as atitudes tomadas pelos agentes que lá viviam funcionaria como um guia para as decisões a serem tomadas. É disto que surge sua mais conhecida obra “O príncipe”, quase um guia sobre como um monarca deve se comportar para manter um reino forte. Ou sua não tão conhecida obra “Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio”, quase sua contrapartida republicana.

Isaac Asimov também criou seu própria guia para sua concepção de história cíclica: a psico-história. No universo criado por ele, e sobretudo na saga “Fundação”, Asimov aborda o surgimento de uma nova ciência capaz de compreender a reação humana mediante os acontecimentos históricos, sendo capaz de prever, com incrível precisão, os desdobramentos de tais acontecimentos no futuro. A psico-história se aproveita da constante do comportamento humano, quando abordado do ponto de vista coletivo – algo que poderíamos chamar de tradição – para prever os ciclos dos acontecimentos, como a queda de um império gigantes e o ressurgimento de um novo. E é através dessa nova ciência que Hari Seldon prevê a queda do império galático e deixa um plano a ser seguido para que os impactos sejam minimizados. Uma espécia de guia. Teria, será, Asimov reproduzido a ideia de Maquiavel? Se seus pensamentos estiverem corretos, podemos, talvez, esperar que em algum momento futuro algum intelectual volte a pensar em criar um guia baseado no fato da historia ser cíclica? Ou melhor, será que essa história já não foi escrita, porém soterrada pelo esquecimento dos séculos, esperando seu redescobrimento?