Os fãs de ficção científica são mais inteligentes?

Rick e Morty é uma série de animação adulta, com temática de ficção científica, criada em 2013 e veiculada no Adult Swin. Apesar de não ser uma série propriamente nova, ganhou popularidade recente, sobretudo no Brasil, após ser veiculada também pela Netflix. Assim como outras séries do serviço de streaming, conquistou uma base de fãs fiéis e bastante atuantes nas redes sociais. No mês passado a quantidade de memes e piadas sobre a animação explodiu, muitas das quais exaltando a inteligência do roteiro e, sobretudo, a profundidade filosófica e científica dos assuntos tratados na série. Ao mesmo tempo esse comportamento incomodou outras tantas pessoas que acusaram a fan-base  do desenho de arrogância e prepotência. Mas este tipo de acusação – ou de comportamento, dependendo de quem estamos falando – não é algo exclusivo aos fãs de Rick e Morty. O mesmo tipo de comportamento pode ser observado entre outras bases de fã dentro do universo da ficção científica: Star Wars, Star Trek, Black Mirror, leitores de “ficção científica hard” ou de qualquer obra que contenha temáticas relativamente profundas ou que, supostamente, requeiram certos conhecimentos científicos para se compreender por completo sua trama. Qual a explicação para esse tipo de comportamento? Será que os fãs de ficção científica são, de fato, mais inteligentes que a média?

Um produto de nicho

Apesar de começar o texto falando sobre as obras de ficção científica – afinal, esse é o tema do blog – esse não é um fenômeno restrito ao gênero. É possível notar um mesmo tipo de comportamento dentro da base de fãs de quadrinhos, filmes de herói, fantasia, metal, mangás, animes e cultura japonesa em geral ou qualquer coisa que se enquadre na “cultura nerd”. É possível notar certa semelhança entre todas esses gêneros artísticos, com exceção talvez dos filmes de herói: são produtos de nicho.

Estudar? Melhor assistir Rick e Morty segundo seus fãs.

Dizer que uma obra é “de nicho” significa que ela não se destina às massas como um todo e sim a um tipo específico de consumidor. Por não visar o agrado geral, as obras de nicho podem empregar elementos bastante específicos que não sejam a preferência da maioria, mas sim daquele grupo particular. Filmes e jogos de terror, por exemplo, podem utilizar muitas imagens violentas e nojentas, contrariando o gosto “popular”, mas agradando sua base específica de fãs. Obras de ficção científica se dão o direito de utilizarem termos técnicos e referências científicas porque sabem que é isto que sua base de fã aguarda e deseja e não porque, como muitos dos próprios acreditam, ela é formada por pessoas mais inteligentes que a média. É pelo mesmo motivo que filmes de herói são recheados de referências, pois sabem que boa parte de seu público é compartilhado com o nicho de fãs de quadrinhos.

Importante aqui ressaltar que um produto criado dentro de um gênero de nicho não necessariamente se mantém em um nicho. Rick e Morty, por exemplo, ao explodir em popularidade e ser veiculado também pela Netflix, perde seu caráter “para poucos” ou “cult”, tornando-se algo “mainstream”. Apesar disto – e talvez por consequência disto – sua base de fã ainda o continua a ver como algo singular e pouco acessível “às massas”.

O gosto enquanto distinção social

Dizer que Rick e Morty, enquanto ficção científica, é uma obra de nicho pode explicar a existência de referências ao universo sci-fi, os termos científicos e a suposta profundidade filosófica. Mas ainda não se explica o comportamento que muitos fãs desenvolvem em associar o apreço à obra a uma suposta inteligencia ou requinte\superioridade social. Pierre Bourdieu é um sociólogo que pode nos dar a pista do porquê isto acontecer.

Já falamos, um pouco, sobre o pensamento de Bourdieu no post sobre a dominação masculina. Mas de forma bastante sintética – e bem pouco profunda – Pierre Bourdieu acredita que a hierarquia social de uma sociedade não é composta apenas pelo capital econômico, mas também e sobretudo pelo “capital cultural”, que o acompanha na maioria dos casos. Ter “Capital cultural” seria deter o conhecimento e o gosto daquilo dito e compreendido socialmente como “culturalmente superior”. Estar no topo da pirâmide da cultura significa não apenas ser visto como erudito ou culto, mas também deter o poder daquilo que é legitimado enquanto “alta cultura” e aquilo que não passaria de “cultura para o povão”. Acumular capital cultural seria, deste modo, uma forma de dominação via cultura e de se distinguir socialmente perante a massa de pessoas.

O culto a uma série, estilo musical, filme ou desenho animado, sobretudo aqueles de nicho, os colocando como “produto intelectualmente superior” dota seu telespectador e consumidor de capital cultural, o tornando socialmente superior aos demais. É bem verdade, segundo o próprio Bourdieu argumenta, que o conteúdo utilizado para a distinção não precisa – e geralmente não o é – algo de distinta inteligência ou complexidade, já que estas são características atribuídas a eles e naturalizadas em seu público fã. Em outras palavras, o produto é reconhecido como “inteligente” porque as pessoas que gostam dele estão numa posição privilegiada da estrutura do capital cultural e não necessariamente por suas características internas. Qual a substância dota a música clássica de requinte se não seu próprio consumo pelas camadas socialmente superiores? Qual o motivo de escargot ser uma comida com maior valor gourmet do que uma pizza se não sua “base de fã”?

Em fóruns alguns fãs temem a falta de público, afinal nem todos seriam “aptos a compreender a série.”

Mas, qual o motivo dos fãs destes produtos culturais se gabarem tanto na internet? Qual a necessidade de proclamarem a pretensa superioridade? Bourdieu chama este comportamento de violência simbólica. Violência simbólica seria uma espécie de imposição de um discurso dominante através da prescrição dos símbolos, crenças e gostos das pessoas que ocupam as altas camadas da estrutura social (tanto econômica quanto cultural). Uma manifestação clássica da violência simbólica é a naturalização de um gosto dito como superior. Por mais que o gosto seja, na realidade, uma decorrência da socialização, ele é narrado enquanto uma “capacidade inata” da pessoa, ou seja, algo que naturalmente foi desenvolvido nela, uma espécie de mérito natural. Se a pessoa gosta de um produto visto socialmente como “intelectualmente superior” este gosto é naturalizado e a pessoa também passa a ser vista como “naturalmente mais inteligente” do que as demais. Enquanto as demais são, por lógica, enquadradas como “naturalmente muito burras para compreender  e gostar do conteúdo”.

Gostar da cultura nerd, de ouvir metal ou de assistir Rick e Morty não implica, obviamente, em realizar violência simbólica e nem indica um pretenso desejo em ascender culturalmente em nossa estrutura social. Este post também não configura uma crítica em expor sua opinião ou em curtir o hype de uma nova série junto a base de fãs. Meu propósito se resume em desmistificar as narrativas da suposta superioridade intelectual entre os fãs do gênero de ficção científica, algo infelizmente bastante comum entre as comunidades do gênero e, sobretudo, discutir um pouco esse recente processo de boom, empolgação, demonstração de orgulho e de antipatia que Rick e Morty passou, reproduzindo aquilo que muitos outros produtos culturais passaram. Podemos até mesmo, aproveitando essa visão de Bourdieu, compreender a implicância contra os fãs da série como formas de questionamentos a estrutura cultural dominante. Afinal, para ele, aquilo que é compreendido como “culturalmente superior” está sempre num campo de disputa, se alterna e se modifica. Nos próximos meses surgirão, serão debatidos, adorados e odiados muitos outros Rick e Mortys.