O “politicamente correto” está deixando o mundo chato?

Parece irônico, mas é justamente no momento em que as ferramentas de comunicação em massa se popularizam e as opiniões se proliferam na internet, que surgem controvérsias sobre restrições do livre pensar e da liberdade de criação. Um dos termos em voga nas redes sociais é a ideia do “politicamente correto” e sua perseguição à produção de conteúdos como filmes, livros, quadrinhos, músicas e etc. A “patrulha do politicamente correto” estaria exercendo uma força que carceraria  a liberdade de expressão, impossibilitando formas de entretenimento antes livres e tornando, consequentemente, o mundo mais chato. Mas será verdade? Analisemos um pouco mais detalhamento esta questão.

O que é “politicamente correto”?

O termo “politicamente correto”, ao contrário de outros termos políticos, não tem sua origem ligada ao campo acadêmico, o que implica na inexistência de uma definição clara e/ou debates mais sérios em torno de sua utilização. O conceito começou a ganhar popularidade ainda na década de 80 nos EUA, quando foi utilizado por grupos conservadores para criticar uma suposta revisão linguística que estaria sendo imposta por minorias sociais, sobretudo negros. Mudanças como a adoção do termo “afro-descendente” como substituto de “preto”. Essa ideia de que o “politicamente correto” seja uma pressão em sentido de tolher o livre arbítrio ainda é bastante acreditada no Brasil, sobretudo entre grupos conservadores, que passaram a realizar uma defesa do livre pensar/falar sob a alcunha da forma negativa do termo, o “politicamente incorreto”.

Mas, ao ser adotada no léxico de grupos políticos mais progressistas o termo perde seu caráter unicamente pejorativo. Neste sentido podemos compreender o “politicamente correto” como uma tentativa de evitar conflitos políticos, empregando um linguajar menos ofensivo e mais neutro. Deste modo ele deixa de ser uma força meramente restritiva ou negativa, tornando-se também produtiva. E é justamente a arte criada sob o valor do “politicamente correto” – ou atribuída a ele – que reside a grande parte das controvérsias alimentadas nas redes sociais. Afinal, evitar conflitos ou restringir ideias de filmes, livros, quadrinhos, jogos, séries e etc diminui sua qualidade final? O “politicamente correto” está gerando mesmo uma onda de fiscalização política que impede a liberdade produtiva e torna o mundo mais chato?

O que é “correto”?

Um aspecto pouco debatido sobre o conceito é concepção de “correto”. Ao adotar uma postura compreendida como “correta” socialmente, o politicamente correto evita assim o embate e o conflito entre pessoas. Acontece que o “correto” não é algo estático ou absoluto, não existindo algo “universalmente correto”. Na verdade “correto”  é uma percepção histórica e social, portanto aquilo que compreendemos como correto – e consequentemente como errado – varia conforme o tempo e o local de quem está analisando.

A negritude comumente “era” associada à sujeira.

Se existisse a tecnologia suficiente para rodar um filme na Grécia antiga certamente as produções, assistidas hoje, representariam vários comportamentos ditos como “errados”, mesmo e sobretudo entre grupos conservadores. Pederastia, eugenia, escravidão e bacanais são elementos comuns da sociedade grega, compreendidos como “naturalmente corretos”, hoje porém, são vistos como barbárie pela cultura ocidental. Portanto. aquilo que poderia ser visto como banal aos olhos de um grego da antiguidade certamente seria, no mínimo, bastante polêmico em nossa estrutura cultural.

O “politicamente correto” é relativo

Se o conceito de “certo” e “errado” varia com o tempo e localidade, o conceito de “politicamente correto” também é relativo. Voltando ao exemplo do hipotético filme grego, ele não teria o poder de incomodar ou questionar a estrutura social grega da antiguidade, sob o ponto de vista de sua produção ele seria “politicamente correto” portanto. Se analisado sob a estrutura ocidental, porém, as práticas expostas seriam compreendidas como mal-gostos, sobretudo se romantizadas ao longo da trama, podendo ser julgada como “politicamente incorretas”.

É este caráter relativo do “politicamente correto”, ignorado pelos teóricos das redes sociais, que tornam suas análises imprecisas . É impossível dizer baseando-se na comparação das produções criativas, que numa década X, por exemplo, havia maior liberdade em relação à década Y, pois as cobranças daquilo que pode, ou não, ser dito  são relativas aos contextos sociais em que as obras estão inseridas. Quando se evoca obras de décadas passadas para reinterpreta-las no contexto atual, compreendemos muito mais a estrutura social da época do que, necessariamente, a liberdade em ser dito isto ou aquilo.

Dedé: O macaco está ai? Mussum: Estou, mas macaco é a tua mãe.

A existência de piadas racistas ou machistas dos programas televisivos da década de 70-80, como os Trapalhões por exemplo, não reflete a liberdade de opinião ou de humor  existente na época e sim a desigualdade na estrutura social do Brasil. Não que as produções sejam intencionalmente preconceituosas, mas refletem parte do senso comum inquestionável da época. É pelo fato de mulheres e negros estarem tão subjugados na estrutura social brasileira – a ponto de não terem voz para contrariarem ou levantarem questionamentos sobre as piadas – que este tipo de humor era aceito e veiculado mesmo em época de forte repressão da ditadura militar. Em outras palavras: A estrutura social brasileira era constituída de tal modo que as piadas machistas e racistas não apenas eram inofensivas como ressaltavam e alimentavam esta desigualdade de poder. Ao contrário de serem “politicamente incorretas” tais piadas eram tão “politicamente corretas” que passavam pelo crivo moral e político da ditadura.

O mundo está ficando chato?

É possível compreender, deste modo, que a percepção da arte como politicamente correta ou incorreta, depende muito mais da estrutura social e consequentemente do conceito de certo/errado adotado por quem analisa do que, necessariamente, a liberdade ou controle daquilo que se diz. Ninguém dizia, algumas décadas atrás, que uma “piada de viado” era politicamente incorreta, pois ela convergia com a visão mais recorrente e difundida social sobre a homossexualidade. Pessoas doentes socialmente, sexualmente compulsivas, marginais, imorais, quase sub-humanos. Neste contexto uma piada homofóbica não questiona, choca ou gera conflito social, pelo contrário, ajuda a manter o homossexual “em seu devido lugar”. Literalmente evita o conflito, ao negar a voz a quem nunca teve. Piadas preconceituosas criadas sob uma estrutura de desigualdade são “politicamente corretas” ao ressaltarem os privilégios de classe, cor, gênero, sexualidade, nacionalidade, entre outros, sobre os desfavorecidos pela estrutura social.

Na década de 90 parecia uma boa ideia fazer piada com a violência doméstica para se vender consoles.

O questionamento deste tipo de humor ou produção artística coincide – na verdade não coincide e sim deriva – com o surgimento de movimentos sociais identitários, que questionam a estrutura de desigualdade de poder existente. Se objetivamente os avanços foram poucos, tais questionamentos serviram, ao menos, para criar a percepção política sobre os temas. Por mais restrito que o conceito de “racismo” seja na cabeça de muitos, é evidente que existe uma preocupação sobre o tema, inexistente à décadas atrás. Dar maior foco e profundidade às personagens femininas, homossexuais ou negras (os), sob este ponto de vista, não é abrir mão da liberdade criativa para agradar os movimentos, mas adaptar a obra ao novo contexto social, mais democrático e plural. Mesmo que tais adaptações e mudanças sejam por um fim comercial, como acontece na maioria dos casos. Afinal, a crítica de um grupo, antes sem voz, pode gerar prejuízos financeiros.  E estas mudanças entram em choque com a antiga concepção de estrutura social, ainda pungente em nossa sociedade.

Quando um “humorista” usa a cartada do “politicamente incorreto” como justificativa ou defender suas piadas preconceituosas, nada mais faz do que defender que o “politicamente correto” seja aquele existente em décadas ou séculos atrás. Afinal, o “politicamente incorreto” de hoje, nada mais é – na maioria dos casos – do que o “politicamente correto” do passado. Assim como o “politicamente correto” tão choramingado por grupos políticos conservadores,  incomoda justamente por colocar em cheque o “correto” existente em outras épocas, onde privilégios não eram questionados. Uma protagonista feminina, sob tal ponto de vista, por exemplo, se choca com a estrutura patriarcal incontestada do passado e ainda existente em nossa sociedade. Torna-se, ironicamente, uma obra “politicamente incorreta”, por contrariar a “ordem natural” estabelecida que as representam como meros objetos ou coadjuvantes da liderança masculina. Deste modo parece existir pouco sentido em dizer que a postura do “politicamente correto” tolhe a liberdade de expressão em função de um “apaziguamento social”, já que ela mesma levanta tais debates na sociedade e nas redes sociais. É difícil imaginar, por exemplo, algo mais conflituoso do que mudar empregar uma protagonista feminina em alguma série de público majoritariamente masculino, ou tornar homossexual um personagem clássico. E, ao contrário disto, nada mais estéril do que piadas que tomam agentes historicamente silenciados como objetos de riso, como defende os adeptos do “politicamente incorreto” -afinal, não existe embate social sem igualdade de poderes e vozes. Parece-me que a real controvérsia que norteia o debate não é a liberdade em se pronunciar ideias e sim qual a estrutura social que oferecerá um ponto de estabilidade na qual se assenta o “politicamente correto”.

Deste modo, para se responder se, de fato, o “politicamente correto” está tornando o mundo chato é preciso questionar antes o que pensamos como “correto”, qual o contexto da produção da obra e, sobretudo, qual tipo de mundo, no fim das contas, queremos e qual nos seriam chatos.