O hibridismo em Frankenstein

Gravura de antigas publicações da obra

O dia primeira de Janeiro de 1818 é uma data especial para a ficção científica, é o aniversário de publicação obra reconhecida como precursora do gênero: Frankenstein, escrito por Mary Shelley,que completou, mês passado, 200 anos de idade. Frankenstrein não é relevante apenas por ser a primeira obra de ficção científica, mas também por manter-se atual mesmo após 2 séculos de publicação. Os questionamentos éticos prenunciados por Mary Shelley no começo do modernismo hoje se provam tão, ou mais, relevantes em comparação àquela época; isso sem entrar nas reflexões quase universais sobre o caráter da humanidade. Mas este post se aterá a um motivo que acredito tornar a obra não apenas atual como, talvez, a mais relevante para a ficção científica. O modo pelo qual Mary Shelley compreende bem o espírito da modernidade científica, ainda em surgimento naquela época, e subverte os principais pilares da ciência para criar aquilo que estamos chamando nesta coluna de “medo científico”.

Medo científica é uma coluna de textos aqui do blog, onde exploramos como o horror e o terror é abordado de uma forma única dentro da ficção científica, utilizando uma estrutura de pensamento moderno para criar o desconforto e o medo. Maiores explicações podem ser encontradas neste post.

Os seres puros do pensamento ciêntífico

Como dito em posts anteriores, um dos grandes pilares do modo de pensar científico, segundo o antropólogo e filósofo Bruno Latour, é a classificação e catalogação de todos os fenômenos e seres entre os pólos da natureza e da cultura. De um lado as coisas nos dadas por “deus” ou pela “natureza”, os seres naturais: as árvores, a água, as pedras, os animais, nossos próprios corpos; é o mundo das coisas não interferidas pela ação humana, o mundo como ele se apresenta a nós. De outro lado as coisas criadas pelas nossas mãos, criações culturais e artificiais: os instrumentos, as roupas, nossas casas, as máquinas e assim por diante. A base da ciência, a experimentação empírica parte desta dicotomia, os cientistas usam os instrumentos para coletar, separar, misturar, analisar e compreender elementos “da natureza”. Mas não só isso, todo o modo de pensar e toda “mitologia” moderna tem como base essa crença de isolamento entre esses dois tipos de seres. É disto que deriva a ilusão de que nós humanos somos os seres absolutos e donos do universo, afinal poderíamos compreender e manipular os seres da natureza sem grandes consequências, já que eles não se misturariam com nossas próprias criações culturais e artificiais.

O hibridismo de Frankenstein

Mary Shelley provavelmente tomou como uma das inspiração para a criação de sua obra os bizarros experimentos de Luigi Galvani   que utilizava impulsos elétricos para fazer um sapo morto se movimentar – apesar de que, em nenhum momento, é citado que o monstro se levanta através de choques elétricos O experimento foi precedido por seu sobrinho Giovanni Aldini, que teve a medonha ideia de utilizar um cadáver humano para realizar shows ao longo da Europa. Um sapo certamente é um ser da natureza, enquanto uma máquina de choque é um ser artificial, mas e um sapo “revivido” pela máquina de choque? Ele é um ser da natureza ou fruto da obra humana?

Frankenstein parte do mesmo dilema, que expõe as contradições da base do pensamento moderno e consequentemente da ciência. Um ser feito de retalho de humanos mortos, levantado através de um procedimento científico é um ser natural ou artificial? Nenhum dos dois, Frankenstein é aquilo que Latour chama de “ser híbrido”. Um ser ou fenômeno que expõe a dualidade que, na realidade, habita todas as coisas. Nada é completamente “dado pela natureza” assim como nada é absolutamente “produzido pelo homem”. A água coletada de um rio, mantida num tubo de ensaio, é tão natural quanto artificial, a clonagem, o aquecimento global, o petróleo coletado, o carro, o computador, todos os seres são híbridos. Escondidos pela ciência, a fim de manter a lógica moderna.  Mas  um monstro criado de cadáveres, andando, falando e ameaçando é um exemplo pouco sutil para ser ignorado ou fingir que não existe.

Imagem do monstro popularizada pelo cinema

Ao desvelar a “farsa do pensamento científico” Mary Shelley nos mostra que os atos possuem consequência e que assim como o mito de prometeu, que serve como subtítulo à obra, não podemos manipular elementos da natureza sem causar prejuízos. Ao notar, com horror, que sua criação contraria a lógica de seu pensamento,e a existência do monstro se torna incompreensível e horripilante, o cientista resolve fugir e abandonar sua cria.  A consequência que Victor Frankenstein, então, passa ao criar e abandonar um monstro hibrido é a perseguição de um ser frustrado, solitário, confuso com sua ambígua natureza. Relembrando-o de seu pecado e de sua ficção moderna.

Nesses 200 anos muita coisa mudou, outros seres híbridos continuam a se proliferar: novos surtos de gripes e super bactérias apareceram, novas doenças sexualmente transmissíveis surgiram, novos animais foram extintos, outras raças caninas foram criadas, o planeta aqueceu, a camada de ozônio furou, florestas foram queimadas, ilhas artificias foram criadas, petróleo foi arrancado do subsolo, criamos máquinas para voar e para mergulhar. E nesta proliferação sem controle uma coisa ainda se mantém, a relevância de Frankenstein a visionária obra definidora do gênero, que já alertava tais perigos a dois séculos atrás.