Modernidade e medo científico

O medo talvez seja um dos únicos sentimentos que compartilhamos com os demais animais, o tremor, a ansiedade e a vontade de fugir ao se depararem com o perigo parecem reações constantes em todos os seres cognitivos. Porém, se o impulso ou o instinto de temer, se manifesta do fundo de nossa biologia, sua motivação – ao contrário dos demais animais – é culturalmente percebida e sentida. Por mais que todos os povos, em todos os tempos, sintam medo de algo, esse algo é culturalmente, temporalmente e localmente variável. Em outras palavras, todos sentem medo, porém de coisas diferentes, dependendo da época ou cultura de que se fala. Da Europa medieval e seu medo das trevas góticas, dos japoneses e seu medo de espíritos aos navegantes renascentistas e o medo dos monstros que habitam o desconhecido, o medo reflete as crenças e as estruturas sociais que compõe cada cultura.

Ilustração renascentista: monstros que emergem das águas desconhecidas

Mas o medo não funciona apenas como uma limitador de ações, um sentimento de paralisia, ele também serviu como força motriz na realização de revoluções científicas e políticas, mudanças, descobertas e – naquilo que nos interessa – na produção artística: Literatura, artes plásticas, teatro e, recentemente, o cinema, foram influenciados pela sensação de medo e incorporaram o terror em sua estética ou narrativa. E, se o medo varia conforme a cultura, o terror utilizado na arte também varia. Qual seria, portanto os temores de nossa sociedade moderna? Obviamente os temores do passado ainda reincidem, numa diferente intensidade, sobre nossas crenças. A igreja católica ainda reforça o medo medieval do inferno, monstros são reimaginados em novos ambientes desconhecidos e a globalização nos exportou novos temores, os mortos que voltam à vida da áfrica, os espíritos pálidos japoneses e etc. Mas qual seria o medo que nos caracteriza enquanto modernos? Qual o terror criado pela estrutura de pensamento da modernidade?

Quadro que retrata o inferno. O maior temor medieval.

Para responder isso precisamos, à princípio, compreendermos qual o conjunto de crenças que compõe a modernidade. Para isso recorrerei aos pensamentos e escritos do antropólogo e sociólogo francês Bruno Latour. Ao longo de seus escritos – e sobretudo em seu livro “Jamais Fomos Modernos” – Latour realiza um mapeamento do modo de pensar e operar da modernidade, que está intimamente ligado ao pensamento científico. De forma bastante resumida e simplificada, segundo ele, a modernidade é caracterizada por um pensamento que opõe o mundo em dois grandes polos: natureza e sociedade. Os fenômenos da natureza são todos aqueles que surgiram e agem independentemente da ação humana, nos aparecem como “dados”, enquanto os fenômenos sociais, ao contrário, são aqueles criados e operados pelos homens. Este pensamento pode nos parecer bastante óbvio hoje, mas trouxe consigo grandes implicâncias. Ao dividir o mundo entre duas esferas isoladas, que não interagem, formou-se a ideia equivocada que todos os fenômenos da natureza podem serem manipulados e observados pelos homens sem que estes interfiram em seus resultados. E esta é a ideia básica por trás da ciência, o homem recolhe material da “natureza”, os isolam, misturam e os testam, compreendem como reagem entre si e criam teorias para explicar seu funcionamento. É através desse pensamento que o homem foi capaz de compreender como a natureza funciona.

Se o pensamento moderno é a divisão entre natureza/sociedade, se manifestando na ciência e na capacidade de manipular a natureza, qual seriam os temores modernos? Acontece que, segundo Bruno Latour, a crença que divide o mundo nestas duas esferas independentes é falsa – e por isso seu livro se chama “Jamais fomos modernos”. Nenhum fenômeno é completamente natural, assim como nenhum acontecimento é completamento social. O simples ato de coletar matéria do meio ambiente, para ser analisada em laboratório, por exemplo, já é caracterizada como uma intervenção humana na natureza.  Os experimentos são todos atos sociais, a ciência só é possível porque as esferas da humanidade e da natureza não são isoladas. E, para que a ciência que conhecemos continue operando, é necessário que esta forma de pensamento moderno continue existindo. Existem casos, porém, onde essa oposição e dicotomia entre natureza/sociedade é posta em xeque: No surgimento e proliferação de seres híbridos. Seres híbridos são todos aqueles que a ciência não consegue encaixar nos polos estabelecidos. São os fenômenos que são, ao mesmo tempo, naturais e sociais, criados e dados. Como as crises ambientais, o buraco na camada de ozônio, o aquecimento global, a inteligência artificial, a inseminação artificial, a clonagem e assim por diante. São os fenômenos que evidenciam que os pólos não existem de forma isolada e que a aparente racionalização e controle da natureza e de nossas vidas é, de fato, apenas uma aparência, uma ficção.

Chamo de “medo científico” portanto, o medo típico da modernidade, o medo que incide sobre uma sociedade que não é mais ofuscada pelas trevas, que já explora o fundo dos oceanos e disseca e cataloga cadáveres. Um medo que ocorre, sobretudo, nas situações onde somos expostos à quebra da sensação de controle e da razão. O medo científico é o medo da proliferação dos seres híbridos, inclassificáveis e incompreendidos por nós. Situações que não ocorrem apenas em laboratórios de ciências mas em todo aspecto de nossa vida moderna. O medo de não controlar os eventos cotidianos, o medo da tecnologia simplesmente parar de responder e, quem sabe, voltar-se contra nós, o medo da descoberta de algo que contradiga nosso conhecimento, o medo da mistura entre homem e máquina, entre o biológico e o mecânico, entre o natural e artificial. E acredito que este medo não apenas é recorrente no imaginário da ficção científica – dando origem a diversos novos conceitos como ciborgue, alienígenas e ciberespaço – como é uma das forças motrizes para a criação do gênero. Afinal, o que seria o monstro de Frankenstein se não um ser híbrido, ao mesmo tempo parte da natureza e criação humana? Ao mesmo tempo que é uma máquina de carne é também um ser com alma e com razão. Um experimento humano que saiu do controle e tornou nebulosa a divisão moderna de sociedade e natureza.

Os próximos textos desta coluna serão dedicados na exploração deste imaginário do “medo científico” em obras de ficção científica. Como o terror da modernidade é empregado e utilizado na construção de mundos ficcionais e o que eles são capazes de refletir sobre nossas próprias crenças, pensamentos e temores.