A revolta do objeto em Solaris

Edição do livro lançada pela Aleph

Quando um biólogo analisa uma bactéria a observa numa placa posta em frente ao microscópio. As bactérias ali presentem continuam a viver suas vidas normais de bactérias, fazendo coisas de bactérias, alheias às intencionalidades do cientista. Não reagem ao seu mau-humor, sua baixa remuneração ou suas aflições conjugais, apenas estão ali, sendo bactérias. Ao menos é isso que a ciência moderna acredita. O princípio de oposição entre o homem cientista – racional e dotado da capacidade de agir – e o objeto estudado  – seja um composto ou um organismo, inerte de motivação, irracional e inconsciente de estar sendo observado – é base do pensamento científico e do modo de pensar da modernidade. Conforme já abordado em post anterior.  É por isso que a ideia de um ser, que em tese seria um objeto de análise, reagir e se adaptar a observação do cientista, tendo a consciência do mesmo, nos parece tão assustador. Gatos mortos-vivos e ondas-partículas de luzes nos parecem coisas bizarras por colocarem em xeque a base de nossa crença moderna e de nossa certeza de sermos os seres que controlam e compreendem todos os fenômenos naturais. Além disso, colocam em xeque a divisão moderna e racional entre “o mundo físico” e “os pensamentos e as emoções”. Afinal, o objeto, que nesse momento se quer objeto seria mais, não apenas captaria nosso pensamento e intencionalidade, como realizaria uma reação, muitas vezes física, partindo de nossa intencionalidade e pensamento.

É por isso que Solaris, obra de Stanisław Lem, se apresenta não apenas enquanto uma ficção científica, mas também um triller de horror psicológico. Ao nos apresentar um planeta que reage aos cientistas, se adapta, e os estuda, ao mesmo tempo que é estudado, Stanisław Lem quebra a barreira entre objeto e cientista, mente e corporalidade, desestruturando parte dos alicerces do padrão de pensamento moderno-ocidental e científico.

A revolta do objeto

Cena da adaptação cinematográfica de 1972 de Andrei Tarkovski

“Solaris” é quase uma obra de desconstrução científica, sob o pano de fundo de um trama psicológico sobre perdas, dores  e arrependimentos. Ao longo de suas páginas acompanha Kris Kelvin, e os demais membros da Estação científica, em sua expedição para estudar o longínquo planeta Solaris, investigando as hipóteses que o corpo celeste é, na realidade, um organismo vivo e possivelmente consciente. O livro narra de forma detalhada – possivelmente muito detalhada para alguns – o funcionamento da “solarística”, a ciência que estuda o planeta Solaris. Sua história de criação, seus principais paradigmas e oposições, os cientistas que contribuíram para ela e, consequentemente, a queda de suas estruturas, uma por uma, conforme Solaris começa a se revoltar contra seus observadores.
Ao contrário do que as bactérias parecem fazer, solaris não se manteve apática à análise dos cientistas. Sabia que estava sendo observada, sabia da intencionalidade dos cientistas. Sabia, de forma incompreensível para os próprios cientistas, aquilo que eles pensavam, aquilo que eles imaginavam e sentiam. Seja através da criação de estruturas em formas geométricas complexas ou, mais radicalmente ainda, através da recriação de entes presentes no pensamento dos cientistas, Solaris migrou para um campo fora dos limites da Solarística e da própria ciência humana. Em certo momento Kelvin, refletindo sobre as humanamente incalculáveis variáveis presentes em Solaris, reflete sobre a ciência:
O homem pode abranger tão poucas coisas de uma só vez; vemos apenas aquilo que acontece à nossa frente, aqui e agora. Ter o esclarecimento simultâneo sobre uma multidão de processos, independentemente se estejam interligados ou não, ou se são complementares, excede suas possibilidades
A ciência enquanto uma narrativa

Cena da adaptação americana de Solaris, de 2002. Filme de Steven Soderbergh

Ao recriar, materialmente, entes e conhecidos queridos através de memórias, nem sempre verdadeiras, Solaris coloca em xeque não apenas a passividade do objeto estudado, contraria a concepção da distinção entre a materialidade e os pensamentos. Não só isso, abala a própria noção de “real” dos cientistas. Afinal, se materializam, a olho nu, memórias, sentimentos e ideias que, neste instante, só existem na mente dos próprios. Sejam memórias reais ou falsas, o limiar entre o “real” e o “narrativo” torna-se nebuloso.Tantos questionamentos abalam toda a certeza racional e científica dos cientistas, que em certo momento questionam: Seria a Solarística apenas uma forma narrativa encontrada para explicar Solaris? Utilizando simplificações e recursos conceituais, ignorando e isolando vozes e indícios que coloquem em xeque a própria Solarística?
A solarística – escreveu Muntius – é a substituta da religião na era cósmica, é a fé paramentada com a vestimenta da ciência; o contato, que é o objetivo visado, é igualmente nebuloso e obscuro como a comunhão dos santos ou a vinda do Messias. A exploração é a liturgia existente nas formulações metodológicas e o trabalho humilde dos pesquisadores é a expectativa da realização, da Anunciação (…) A obviedade disso, semelhante a outras – falta de experiências em comum, falta de conceitos permutáveis entre si -, são rejeitadas pelos solaristas, da mesma forma como os crentes rejeitavam os argumentos que abalavam os fundamentos da sua fé.  (…) A solarística é então o filho o póstumo dos mitos há muito extintos, a eflorescência dos anseios místicos(…)
Esta visão da ciência enquanto uma estrutura explicativa da realidade existente, a aproximando de um pensamento mítico, lembra bastante, curiosamente, o pensamento do antropólogo Levi-Strauss. Isso não significa que todo processo científico seja uma mera ficção, ou que se comporte como uma simples narrativa. Mas é certo que a ciência, assentada no pensamento moderno-ocidental, se comportando de forma autônoma, usa de métodos para sua auto-sustentação, e por isso contrariar tais princípios nos parece tão assustador, como o discutido em todos os textos desta coluna e explicados no post sobre o medo científico.
Solaris pode ser julgado como uma ficção científica, talvez, excessivamente hard, com muitos termos técnicos e uma escrita quase acadêmica – como deve ser possível observar pelos trechos aqui expostos. Mas isso se justifica pelo fato da ciência, apresentada enquanto “solarística”, ocupar o papel central da obra, apesar de toda drama psicológico e angústia em que passam os cientistas na estação. Solaris é a história do nascimento de uma ciência, da revolta de seu objeto de estudo e a consequente morte deste campo científico, uma interessante reflexão para nossas próprias ciências. Afinal, não seria a apatia das bactérias tão fictícia ou narrativamente criada quanto a crença dos fundadores da solarística?