A objetificação da humanidade em A Guerra dos Mundos

Quando os marcianos nos atacaram, despencando em  solo terrestre em seus cilindros metálicos, a humanidade esnobaram de suas capacidades, desdenharam de suas tecnologias e os tomaram como objeto de curiosidade. Ao constatar seu terrível poderio bélico e suas nefastas intenções passaram a compreender-los como seres não apenas próximos à humanidade, mas também como uma evolução natural de nós mesmos. Um ser aperfeiçoado, perante ao qual não passaríamos de animais, meras formigas esperando o formigueiro ser pisoteado pelos invasores. Este é o enredo de “A Guerra dos Mundos”, o pioneiro e  talvez a maior referência sobre invasões alienígenas, escrito por H. G. Wells, surpreendentemente, em 1898. O livro recebeu diversas adaptações cinematográficas, nenhuma entretanto, reproduziu tão bem o cerne do terror descrito em suas páginas: a objetificação da humanidade perante a chegada de marcianos intelectualmente e tecnologicamente superiores à nós.

Agência e objetificação

O terror em “A Guerra dos Mundos” não é construído apenas pelas detalhadas e angustiantes cenas de destruição e morte da humanidade mas também, e sobretudo, por desconstruir uma das crenças centrais do pensamento moderno e científico: a humanidade enquanto agente máximo das ações que ocorrem no mundo, relegando aos demais seres o papel de meros objetos.

Um dos impactos da emergência do pensamento iluminista, no século XVII, é realocação da humanidade no centro das ações do mundo. Nasce daí a ideia de que, enquanto humanos, somos dotados de uma “agência”, ou seja, da capacidade de manipular o ambiente e os objetos à nossa volta, submetendo-os à nossa vontade. As ações que governam o mundo partem,segundo esta lógica, da intencionalidade humana. Decorre disto toda a base do pensamento científico moderno, a experimentação, a observação e o isolamento dos objetos inertes e despossuídos de ação. Assim, como  dos demais elementos do pensamento moderno (que discuti um pouco neste post), a ideia de que o homem é o agente de um mundo cheio de objetos é base fundamental para a ilusão de bem estar da humanidade, da natureza estar a nossa disposição e de que estamos no controle de nossos destinos.

Quando os alienígenas nos objetificaram

A ideia de sermos agentes únicos do mundo que vivemos se mantém, basicamente, por não compartilharmos o mundo com outros seres com alta capacidade cognitiva a menos que os ratos e golfinhos nos escondam isso. Mas o que aconteceria numa hipotética invasão alienígena? A Guerra dos Mundos seja talvez a primeira obra a abordar esse tema, reproduzido em outras obras mais recentes. Como na trilogia Alien, onde o xenomorfo força uma inversão de expectativa entre caçador e caçado, colocando os humanos como meras presas de um ser biologicamente superior. Ou ainda no terror cósmico de Lovercraft.

Ao invadir a terra e exterminar parte da população com seus raios de calor e fumaça tóxica, os marcianos se provam enquanto agentes, capazes de alterar o espaço que lhe rodeia de forma mais eficientes do que os próprios humanos. É neste sentido o narrador começa a encara-los de outra forma, observando suas semelhanças e superioridades em relação aos humanos. Como no seguinte apontamento:

Para mim é perfeitamente plausível que os marcianos tenham descendidos de seres parecidos com os humanos, pelo gradual desenvolvimento do cérebro e das mãos (…)

O movimento de se colocar os marcianos invasores como agentes superiores e mais evoluídos do que os humanos é o mesmo de nos rebaixarmos como objetos. Seres plausíveis de serem manipulados, ignorados, estudados, exterminados ou simplesmente mantidos em cativeiros, como os humanos compreendem os demais animais. Ao se dar conta do futuro angustiante que esperava a sociedade o protagonista do livre aponta:

Naquele momento senti uma emoção incomum à experiência humana, mas que as pobres criaturas que dominamos conhecem muito bem (…) Percebi a primeira insinuação de algo que logo tornou claro em minha mente, e que me oprimiu durante muitos dias – uma sensação de destronamento, a convicção de que já não era o mestre, mas um animal entre outros, sob a tirania dos marcianos. Daí em diante, como os animais, nós espreitaríamos, fugiríamos, buscaríamos esconderijos. O terrível império humano caíra.

Acredito que seja pela própria posição de “objetos”, nas quais os humanos são colocados, que H. G. Wells não nomeia nenhum dos seus personagens. Nunca conhecemos o nome do protagonista narrador, os personagens que lhe cruzam o caminho são descritos por seus encargos antes da invasão, como o Padre e o Artilheiro. Os familiares do protagonistas são descritos pelo parentesco, como a esposa, o tio e o irmão. Assim como os demais objetos, que são meramente catalogados em espécies, categorias e tipos – excetuando os animais de estimação – os humanos objetificados pelos alienígenas também não possuem nomes próprios, afinal, não possuem a capacidade da agir, não são agentes.

Ao tornarmo-nos meros objetos de outros agentes invertemos a lógica moderna da ciência, somos os ratos de laboratórios a mercê da inexistente compaixão de que um dia tratamos outros seres terrestres. A guerra dos Mundos é muito menos um livro sobre guerras interplanetárias e muito mais sobre os mais íntimos medos da sociedade moderna. É uma obra que ataca os temores  enraizados em nosso padrão de vida, ao inverter a lógica entre agente e objeto H. G. Wells nos oferece um dos mais clássicos exemplares do terror científico.

Uma curiosidade: As ilustrações que compõe o post são retiradas originalmente de uma edição francesa e realizadas pelo brasileiro radicado francês Henrique Alvim Corrêa em 1906. As ilustrações também estão presentes na edição brasileira da Suma de letras, lançada em 2016.