O “trajestilador” de Frank Herbert

O rico universo das areias de Arrakis seria capaz de fornecer, sozinho, máquinas fantásticas em número suficiente para um grande maquinário. Veículos voadores e as refinarias chamadas ‘lagartas’ compartilham o escandante sol de Duna com os gigantescos vermes da areia. Poucos livros misturam sua trama com tão detalhada descrição de seu universo. Arrakis e seus povos são descritos de modo aprofundado, sua cultura, sua relação com o deserto, com os vermes da areia, com o governo e com as especiárias, principal – e praticamente único – produto explorado no planeta. O universo criado por Frank Herbert é tão interessante que coloca em segundo plano o trama político, as conspirações, as traições e os jogos de poderes na saga de Paul Atreides para retomar o trono do planeta de areia. Mas, para mim, entre todas as máquinas e  invenção deste rico universo, a mais genial e simbolicamente importante é o trajestilador.

Uma ficção científica sobre os limites humanos

Trajestilador é uma vestimenta típica dos povos que vivem em Arrakis, o planeta de areia. Utilizado, sobretudo, pelos fremens,  povo ancestral e nativo do planeta. Povo que sofre a opressão e desprezo de seu governo local, indicado pelo imperador para ocupar o cargo na extração de especiarias. O trajestilador é a forma pela qual os fremens são capazes de viver sob o calor e, sobretudo, a baixa umidade e falta de água do deserto, enquanto os nobres vivem em mansões climatizadas e possuem acesso à fontes ilimitadas de água.

O princípio do trajestilador é – como o próprio nome diz – destilar a própria água perdida pelo corpo sob as altas temperaturas, a tornando novamente, própria  ao consumo humano. O mais fascinante de se imaginar um traje-destilador é a simplicidade na escolha de Frank Herbert. Não existe um maquinário complexo, energia atômica ou produtos químicos. O traje é feito de tecidos e tem um design adaptado ao clima desértico. Funciona de maneira relativamente simples e plausível de ser reproduzida: esponjas absorvem a umidade perdida pelo corpo na forma de suor, as destilando e as armazenando em um reservatório para futuro uso. Por mais que existam perdas significativas de líquido nos processos metabólicos a perda de água é reduzida, tornando plausível a vida em um ambiente hostil e seco. O trajestilador é o principal meio, entre vários, pelos quais os Fremen possuem  acesso à água, recurso fundamental para a vida sob tais condições.

Trajestilador imaginado por Davi Lynch em sua adaptação cinematográfica.

Esta relação do povo do deserto com a água é um dos aspectos mais interessantes que norteiam toda a trama do livro. Os mortos, por exemplo, passam por um processo de destilação do sangue. Carregar água (em forma de sangue) para a tribo é um dever moral aos fremen, assim como um possível sacrifício para suprir a cede de seus iguais em um caso de emergência. Ingerir ou manipular líquidos também é parte integrante da cultura e da religião fremen, estando presente em diversos rituais representados ao longo do livro.

O foco no modo de vida Fremen, sua relação com a (falta de) água e com o planeta desértico, reflete, nesta obra, o migrar da ficção científica a um nível mais cotidiano, mais micro. Ao invés das grandes epopeias  espaciais, o problema do combustível, o deslocamento além do limite da luz, as controvérsias da viagem temporal; temos a sobrevivência em um clima desértico e austero, realidade de milhares de pessoas em nosso mundo. A trama desenvolve-se sob este nível micro-humano, percorrendo outras realidades também cotidianas: as ambições dos jogos de poder, a traição, a ganância, o preconceito e a violência. “Duna” é, acima de tudo, um livro sobre intrigas políticas.  O trajestilador, neste sentido, funciona como uma espécie de símbolo de resistência da humanidade perante um ambiente hostil, seja pela falta de água seja pelo preconceito e desprezo  às próprias pessoas.Duna é uma leitura recomendada tanto para os fãs de ficção científica e fantasia quanto aos que admiram mundos complexos e detalhados, sem contudo, deixar de abordar as dificuldades e resistências humanas. Vista seu trajestilador e embarque nas Dunas de Arrakis.

PS: Atualmente uma segunda adaptação do livro aos cinemas está em fase de pré-produção, sob a direção de Denis Villeneuve, mesmo diretor de Blade Runner 2049 e A chegada. Aguardemos novidades.