O “outro rosto” de Kobo Abe

Qual é o significado de um rosto? Ele não é apenas a pele a revestir nossa face. Existe todo um culto e uma preocupação em torno dele, de sua aparência, de seu estado, de sua juventude, muito maior se comparado a quaisquer outras partes de nosso corpo. Quando pensamos numa pessoa, muito provavelmente a imagem que nos vêm à mente é de seu rosto. Podemos até especular que, numa sociedade fortemente baseada no visual, como a sociedade moderna, o rosto é onde reside a “imagem da pessoa” ou, em outras palavras e concepções, o rosto é a essência de nossa  personalidade, é onde reside o “eu”.

Bela capa da igualmente bela edição da finada CosacNaify

Neste sentido, uma pessoa que desfigura, ou perde seu rosto, num acidente por exemplo, também perderia ou deformaria parte significativa de sua personalidade? Como uma pessoa “sem rosto” seria capaz de manter e estabelecer interações com seus iguais e seus entes queridos?  Como reconstruiria sua própria identidade. Este é o problema vivenciado pelo protagonista anônimo – afinal, alguém sem rosto necessitaria mesmo de um nome? – do romance “O rosto de um outro” do japonês Kobo Abe. E este post abordará uma das invenções mais profundamente abordadas, apesar de banal, dentro da literatura ficcional em que tive contato: a máscara de Kobo Abe.

Além da ficção, além da ciência

“O rosto de um outro”, obra de Kobo Abe, importante escritor vanguardista do Japão pós-guerra, é basicamente um romance epistolar. São três cadernos escritos pelo cientista com o rosto desfigurado e destinado a sua esposa. Neles ele descreve todo o processo, toda a angustia e isolamento vivenciado em decorrência de seu acidente. Somos introduzidos ao “ninho de sanguessugas” como ele se refere ao seu rosto – ou falta dele – e a seu projeto: utilizar seu conhecimento científico na criação de um rosto alternativo, uma máscara. Não uma que represente seu antigo rosto, mas um novo rosto, para uma nova identidade. O relato segue a realização de seu plano ao mesmo tempo que, através do fluxo da consciência do cientista, descreve o desespero e a crescente paranoia, desesperança e violência do cientista.

Cena da adaptação cinematográfica de 1966 de Hiroshi Teshigahara

A trama, observada assim por cima, pode até se assemelhar a filmes trash de terror ou dirigido por Dario Argento. Mas, na realidade, a escrita assemelha-se muito a uma ficção científica clássica, já que o livro consiste em relatos de um cientista, usando uma linguagem bastante técnica. E seu conteúdo, apesar de todo drama psicológico, é carregado de reflexões sobre a identidade, a artificialidade – ou não – da matéria, as relações humanas, a alteridade, a supremacia do visual e etc… Possíveis metáforas a própria identidade japonesa, recém abalada pelo impacto de duas bombas atômicas.

A máscara que produz um outro

O centro de toda a reflexão reside na máscara. Não apenas uma máscara banal, para se esconder a identidade, mas uma máscara para se criar uma nova identidade, um novo rosto. Se o rosto é meio pelo qual interagimos com os demais e se “para ver é preciso ser visto”, trocar o rosto é a oportunidade de se criar um “outro”, um novo “eu”. A princípio o cientista desprovido de face, em sua angústia e isolamento, anseia por um mundo indistinguível em aparências, onde a essência de uma pessoa não seja transmissível pelo seu rosto:

Francamente, seria maravilhoso se, num átimo, todos os seres humanos do planeta ficassem sem olhos ou esquecessem que a luz existe. No mesmo instante todas as formas possíveis e imagináveis se reconciliariam. Todo mundo se daria conta de que pães, sejam eles triangulares ou arredondados, são pães e nada mais…

Mas bastou o experimento bem sucedido da máscara para que a liberdade em se “desprender da aparência” tornar-se uma liberdade para manipular o próprio rosto e moldar livremente sua aparência.

Mas então, por que cargas-d’água me angustiaria tanto até ontem? Minhas inúmeras reflexões no sentido de que a pele não mereceria atenção especial por não ter relação alguma com o verdadeiro caráter de um homem não teriam passado de subterfúgios conjugados a preconceito?

O cientista chega, até mesmo, a imaginar um futuro onde a tecnologia das máscaras hiper-realistas fosse difundida e as pessoas escolhessem seu rosto, aquele que melhor condiga com a personalidade construída. Tal sonho remetem-me a sociologia simbólica de Erving Goffman. O sociólogo canadense explica as interações sociais através de metáforas teatrais, compreendendo as pessoas enquanto atores. Cada “representação” que vivenciamos no nosso cotidiano é realizada através da montagem de um personagem específico, com suas próprias roupas, caracterização, modo de se portar ou falar, aquilo que Goffman denomina, curiosamente, de “máscara” ou “persona”. Para ele não existe um “verdadeiro eu”,mobilizamos diferentes máscaras ao longo de nosso cotidiano, para melhor respondermos as expectativas das pessoas as quais interagimos. Ser “amigo” é se portar e se caracterizar de forma distinta de ser “funcionário” ou “filho” ou “namorado”, por exemplo. O sonho do cientista japonês seria, neste sentido, um total desprendimento das características inatas ou naturais no processo de construção identitária, seria talvez, a completa liberdade da pessoa enquanto indivíduo.

A máscara revela a ambiguidade entre um cientista humilhado pela sua falta de rosto, socialmente isolado e ansioso por um mundo sem julgamentos e mais empático e um novo homem criado pela máscara, por um novo e perfeito rosto, um jovem determinado a provar estar certo para a sociedade, mesmo que na base da violência ou falta de empatia. Ou, será que tala ambiguidade já existisse no interior do cientista e a máscara apenas a evidenciou? No interior de todas as pessoas, quem sabe? O que as pessoas seriam capazes de fazer se pudessem mudar a identidade ao bel prazer, a todo momento? O que evita, por conseguinte, que as pessoas façam ou sejam aquilo que de fato desejam? A grande questão de “O rosto de um outro” não me parece tanto a resposta sobre onde se encontra nossa essência e sim qual seria essa essência afinal.