A “invenção de Morel” de Bioy Casares

Ao evocar a lembrança de grandes máquinas, autômatos ou instrumentos da ficção científica logo vem a mente alguma obra canônica do gênero. Os robôs de Asimov, o Nautilus ou o foguete de Julio Verne, o monstro de Mary Shelley e a máquina do tempo de H. G. Wells são exemplos óbvios. Opto, porém, por iniciar esta coluna sobre máquinas da ficção científica por um exemplo menos óbvio, que apesar de reconhecido dentro da literatura, é pouco discutido ou lembrado entre os fãs do gênero – muito por conta de sua nacionalidade marginal. Me refiro à Adolfo Bioy Casares, importantíssimo escritor da literatura fantásticas argentina e seu livro “A invenção de Morel”.

A máquina de Morel

O livro acompanha a tentativa de um fugitivo político – com nome nunca revelado na trama – em descobrir o mistério por trás da ilha que se esconde: pessoas que aparecerem do nada, se comportam numa espécie de looping e parecem ignorar por completo a sua presença. Descobrir do que se trata a tal “invenção de Morel” é, deste modo, parte do climax do livro. Os próximos parágrafos apresentarão, portanto, spoilers que revelam o caráter desta invenção.

A invenção de Morel, que dá título ao livro, é uma máquina construída em uma ilha deserta, conhecida por sofrer de uma moléstia que mata seus moradores.A máquina, segundo seu criador – o referido Morel – seria capaz de dar a imortalidade quando utilizada. O ponto central da trama é como Bioy Casares aborda a questão da morte e da imortalidade no livro e a extrapola ao nosso mundo. Morel cria sua máquina compreendendo a imortalidade através de um aspecto físico e empírico. A máquina é basicamente uma câmera filmadora, capaz de captar não apenas as informações audíveis e visuais mas também táteis. É como uma reprodutora de todas as informações empíricas que ocorreram em um certo momento, criando uma projeção física do ocorrido. Morel, numa visita à ilha com alguns convidados, utiliza sua máquina para registrar eternamente o momento, que passa a se reproduzir daí em diante.  O cientista e seus convidados – ou suas projeções – passam a “viver” eternamento no looping de alguns dias, refazendo os mesmos atos de sempre. Até mesmo as paredes e os objetos, captados pelas lentes da invenção, são “reinventados” pela máquina. Apesar das projeções não reagirem aos estímulos externos, como as tentativas de interação do protagonista, elas são empiricamente reais, isto seria o suficiente para se dizer que “uma vida foi replicada” ou que Morel e suas cobaias agora são imortais?

Adolfo Bioy Casares

Em meio ao surto de descobrir a realidade e a reprodução insistente dos diálogos e das ações dos turistas ali projetados, o protagonista do livro realiza algumas importantes divagações, motivadas pela explicação de Morel à respeito de sua máquina: ao reproduzir as pessoas captadas pela lente, a máquina também seria capaz de transferir a “vida” ao duplo ali projetado? Afinal, o que seria “viver” de fato ?  Onde se encontra o “verdadeiro eu” ou a personalidade de uma pessoa? Dentro de sua constituição física ou em algum meio espiritual/metafísico incompreensível para a ciência? Num ato de curiosidade o protagonista utiliza a máquina para “filmar” sua mão, que passa a ser reproduzida eternamente. Daí em diante ele é atacado por dores e por uma sensação que ele julga ser a pele morrendo na região reproduzida, um possível indício de que parte de seu “eu” migrou para a reprodução da máquina e que ele começou a definhar. É neste instante que Bioy Casares sugere, sutilmente, uma interessante relação. Se as pessoas reproduzidas pela máquina morrem em seus antigos corpos e passam a viver exclusivamente num lopping infinito, a adoção de um modo de vida moderno e fragmentado em ações repetitivas e cotidianas, trabalho – casa, não seria a lenta morte de nossas vidas? Uma vida sem autonomia, sem reações ao meio que nos rodeia, não seria o mesmo que morrer? Vivemos, talvez, numa eterna imagem reproduzida de nós mesmos, vazia de significados? A ilha que o personagem se refugia seria, talvez, a metáfora de nossa própria sociedade?

A construção do livro em primeira pessoa e o fato do protagonista talvez estar sofrendo de alucinações causadas pelo isolamento social, choque em ver a invenção, ou medo, torna todo desfecho inconclusivo. É impossível saber se sua mão de fato perdeu a vida, ou até mesmo se a máquina de fato existiu, já que tudo pode ser fruta da mente do fugitivo. As divagações trazidas por Bioy Casares e sua invenção, entretanto, permanecem reais e cada vez mais relevantes. Antecipam questões que tornam-se ponto central da Ficção Científica em autores como Phillip K. Dick e da literatura distópica. A obra também serviu como inspiração ao seriado LOST, aparecendo como referência ao ser lida pelo personagem Saywer. Além de tudo isso a obra merece ser lida por si só. Oferece um exemplo de uma ficção científica produzida longe do eixo central do gênero, escrita por um estilo distinto das obras clássicas, uma ficção científica do realismo fantástico argentino.