A forma e o conteúdo da ficção científica: O caso da narrativa de Arthur C. Clarke

A ficção científica, popularizada pelas revistas pulps de baixo orçamento e conteúdo quase amador, apropriada, posteriormente, pelos futuristas do meio científico e técnico, sempre esteve longe da área acadêmica e do debate entre as correntes literárias. É comum a percepção, entre os fãs do gênero e da “grande literatura”, de que a ficção científica é produzida com muito conteúdo mas pouca forma. Muitas ideias e conceitos, mas pouca atenção ao modo pelo qual é escrita a narrativa. Até mesmo a tentativa de uma maior sensibilidade artísticas dentro do gênero, como o movimento New Wave, não foi capaz de mudar o diagnóstico. Já que, ao invés de resgatarem a antiga narrativa e ressignifica-la, a renegaram como “narrativamente pobre” e procuraram suas inspirações dentro de outras correntes modernistas da literatura.

Não sou nenhum especialista em literatura ou escrita, mas gostaria de expor minha humilde tese de que, na realidade, a forma pela qual a ficção científica era escrita, sobretudo em sua geração “hard”, foi incompreendida por diferenciar-se daquilo que a academia e os “altos círculos de literatura” compreendiam enquanto estrutura literária. Não revelam uma falta de atenção à forma, mas sim e simplesmente, uma forma característica que a distingue daquelas consagradas de até então. Para isso usarei como exemplo a narrativa que mais me agrada dentro do sub-gênero: Arthur C. Clarke.

Literatura dos cientistas

A “geração beat” dentro da literatura é marcada pelos pensamentos e forma de expressão da posição ocupada pelos jovens na sociedade no contexto de guerra-fria e da contra-cultura. Assim como a literatura marginal reflete o dialeto, a cultura e a realidade de atores marginalizados da sociedade. Do mesmo modo a ficção científica,em seu gênese comercial enquanto um gênero, refletia todo o imaginário cultural proporcionado pela nova cultura moderna, pelo acesso aos meios de comunicação de massas e novos equipamentos tecnológicos do american way of life. Posteriormente, quando ganhou destaque em novas editoras em forma de romances, teve como maior expressão da “Era de Ouro”, escritos como Isaac Asimov, Robert A. Heinlein, Arthur C. Clarlk entre outros. O primeiros vindo do campo científico, o segundo do campo técnico militar e o terceiro circulando pelos dois campos. A dita “ficção científica hard” reflete, portanto – não apenas no conteúdo temático, mas também na forma – a posição, a expressão, o dialeto e a cultura dessas pessoas, basicamente cientistas. Arthur C. Clarke lutou na segunda guerra mundial como técnico de radares, se formou em física e matemática, atuando dentro do campo da astronomia e da oceanografia. É de se imaginar que sua escrita, seu léxico e a estrutura pela qual desenvolve seus livros reflita sua posição social. Não apenas de forma inconsciente, por carregar todo seu histórico de vida e experiência, acredito que a estrutura escolhida para seus livros seja propositalmente “dura” e cientificista.

A poesia dura da ciência

Dizer que a estrutura dos livros de Arthur C. Clarke, assim como seus contemporâneos de gênero, sejam “propositalmente dura e cientificista” não significa um desconhecimento ou incapacidade em reproduzir as formas clássicas da literatura. Muito menos um desprezo pela forma ou pela capacidade de evocar sentimentos ou produzir lirismo. A ficção científica, sobretudo a denominada “hard”, pode não ter o desenvolvimento complexo da psique dos personagens, o lirismo em seus versos descritivos, a estrutura experimental da vanguarda literária ou o regionalismo de um romance histórico, mas nem por isso possui uma “ausência” ou “desprezo” pela forma. Empregam seu próprio léxico cientificista, uma descrição mais dura, fechada, quase exata, para representar não apenas a posição dos protagonistas – geralmente homens da ciência – mas também de seus escritores, transpondo aos leitores a sensação e a contextualização pela qual o romance é criado. Nem por isso a forma é “mais feia” ou menos “poética”. E na junção das palavras mais duras e secas que Arthur C. Clarke consegue criar suas belas imagens descritivas. Se um escritor romântico cria suas imagens a base de tinta à óleo e um poeta marginal com lata spray, Arthur C. Clarke e seus contemporâneos da ficção científica hard a compõe com números e parábolas.

As três figuras diminuíram na distância e desapareceram. Muito tempo depois, uma nuvem prateada pareceu se elevar acima das colinas, movendo-se lentamente em direção ao mar. Num arco extenso, como que relutante em deixar seu mundo, a última das grandes naves subiu em direção ao horizonte e se encolheu, a caminho do nada por sobre os confins da Terra.

A maré retornava com o fim do dia. Como se seus construtores ainda caminhassem entre suas paredes, o prédio baixo de metal começou a brilhar cheio de luz. Próximo ao zênite, uma estrela não aguardara que o Sol se escondesse. Já luzia com um brilho forte e branco contra o céu do poente. Logo, suas companheiras, não mais os escassos milhares que o homem um dia conhecera, começaram a encher o céu. A Terra encontrava-se agora perto do centro do universo e áreas inteiras do céu exibiam um brilho contínuo.

O trecho acima é do conto “Transiência”, presente na coletânea “O Outro Lado do Céu” e reflete bem, ao meu ver, o estilo literário de Arthur C. Clarke. Reparem que em sua narrativa existem poucas figuras de linguagem, como metáforas, sinestesia, antíteses e sobretudo catacreses. A descrição é feita de forma mais exata, quase pontual. Não é improvisado nenhum nome mais poético para “estrela”, não são luzes, brilhos, vaga-lumes, pontos brancos e etc, são apenas e simplesmente estrelas. A imagem descrita não evoca sensações empíricas além daquelas descritas, as cores não são quentes e o cheiro não tem nenhum sabor. Os objetos se comportam conforme suas próprias características, apesar de que, neste trecho, se sobressaia a figura de linguagem da personificação dos elementos naturais e dos astros celestes. Sem, contudo, a utilização de termos místicos que dotem a descrição de certa aura mágica. Por mais que a cena descrita seja uma cosmopolítica de seres em movimentos, a descrição ainda é fria, dura, exata, sem deixar de ser, contudo, bela e poética. É perceptível a escolha de palavras e termos mais “científicos” e menos encantados. Palavras como arco, extenso, zênite, luzia, poente, escassos, áreas e contínuo evocam certa rigidez na fala e exatidão de descrição, aproximando a narrativa a uma descrição acadêmica. Caso fosse o desejo, tais palavras poderiam ser substituídas por outras mais “amigáveis” ou “palatáveis” como: abóbada, longo, linha do horizonte, piscava, pôr do sol, raros, manchas. Alterando significadamente a sensação causada pela leitura da narrativa, sem modificar, contudo, o conteúdo desenvolvido.

Espero que o simplório exemplo ilustre bem meu ponto de vista, o qual ressalto, não é uma verdade em si e sim uma simples suposição. Suposição plausível de críticas, elogios ou questionamentos logo abaixo nos comentários. Seria a ficção científica um gênero literário pouco voltado a forma e muito ao conteúdo? Seria sua forma incompreendida por empregar uma linguagem inusual? Seria escrita por romancistas amadores e pouco habilidosos para desenvolver uma narrativa estilizada? Ou seriam eles cientistas tentando contar histórias com suas calculadoras?