A construção de universos ou “O problema das novas séries de literatura”: O caso da Guerra do Velho

Capa da edição brasileira, publicada pela Editora Aleph

A chegada de “Guerra do Velho”, livro estreante do escritor John Scalzi, ao mercado editorial brasileiro é fruto da tentativa da editora Aleph em publicar, em solo nacional, obras da ficção científica contemporânea. Durante muito tempo ouvi, dos staffs da editora em eventos, diversos elogios a respeito do livro, somando-se à boa recepção da obra lá fora, onde concorreu à diversos prêmios, incluindo o Hugo Awards. Após tanta expectativa e finalmente tendo acesso ao livro senti um leve sabor de decepção. O livro não é ruim,  mas muitas das ideias lançadas são pouco, ou nada, desenvolvidas ao longo da trama. Dando um sentimento de “oportunidade desperdiçada”. Algumas das escolhas parecem refletir uma tendência contemporânea na escrita da literatura fantástica e ficcional, sobretudo àquelas voltadas a um público mais jovem e ao agrado do mercado editorial. Este texto estreia a coluna “metadados” onde exploro um pouco sobre o campo da ficção científica em si, suas características e escolhas de produção.

Construindo universos

Um dos aspectos mais importantes da Ficção científica, seja no cinema, literatura ou jogos, é a ambientação. A construção de um universo instigante, curioso e/ou criativo é um dos trunfos do gênero para atrair novos leitores. Lembro-me quando comecei a ler o gênero, ainda nos primeiros anos da escola, o universo da Terra oca de Julio Verne ou o planalto isolado de Arthur Conan Doyle me fascinaram. Os escritores e o mercado editorial também estão cientes disto, incentivando a criação de obras ambientadas em universos cada vez mais complexos e amplos, na tentativa de emplacar o novo “Harry Potter” ou “Jogos Vorazes” do mercado.

“Guerra do Velho”, para tomarmos como exemplo, segue esta mesma lógica de criação. O universo do livro é de fato muito interessante: Os humanos finalmente extrapolaram os limites do sistema solar e começam a colonizar novos planetas. Deparam-se, porém, com outras raças que possuíam a mesma intenção, muitas das quais são antipáticas aos seres humanos. Cria-se, desta forma, uma “Força Colonial de Defesa” com o objetivo de proteger as colonias humanas e expandir os domínios terrestres. O grande diferencial é que tal exército é formado por velhinhos e velhinhas com, no mínimo, 75 anos, que passam por um processo que os tornam aptos a defenderem as forças armadas. Além disso a tecnologia existente no universo é muito interessante, um grande arsenal de armas, naves, instrumentos médicos e adaptações comunicativas muito bem descritas pelo autor. Qual o motivo de minha decepção com o livro então?

Universos largos

Cena de Blade Runner: A adapação cinematográfica do livro também soube aproveitar a ambientação como pano de fundo.

Lembro-me de ficar impressionado com a profundidade e com os detalhes do universo criado por Phillip K. Dick em “Androides sonham com ovelhas elétricas?”. Numa determinada cena é descrito o funcionamento de um sintetizador de emoções, uma caixa que permite o usuário a escolher as emoções que quer sentir. A ideia parece genial, permite a exploração de várias temáticas e aprofundamento em diversos debates. Mas não, não foi necessário. O sintetizador aparece em poucas cenas e pouco é explorado ao longo da trama. Isto porque o romance foca-se em outras questões, como os androides em si. O sintetizador está lá, como pano de fundo, contribuindo para criar uma ambientação onde a humanidade decadente e vazia de sentido apela à tecnologia para a produção de sensações que sentiriam de forma “natural”, papel semelhante aos que os animais elétricos possuem na trama. Tudo para para contribuir na reflexão e no posterior embaralhamento que o autor faz entre “real” e “artificial”. O universo de Phillip K. Dick é amplo, complexo e profundo, mas ainda um pano de fundo para uma história maior. O universo contribui enquanto uma contextualização da reflexão e dos argumentos propostos pelo autor.

Pandora, cenário de Avatar. Outro exemplo de universo que sobrepõe-se à própria trama?

Enquanto lia “Guerra do Velho”, e isto vale também para outros livros contemporâneos do gênero, como “Silo”, minha impressão foi quase oposta. Senti que a intenção do autor não era criar um universo rico para dialogar com os acontecimentos do livro, mas sim um universo tão amplo, tão cheio de minúcias, que permita a exploração dele numa longa série de livros. Neste aspecto o universo não é apenas a ambientação, torna-se, também, ator central de toda a trama do livro. Isto não seria de todo mal, caso a obra não indicasse questões que deixam de ser exploradas em função de um alargamento, cada vez maior, dos elementos presentes no universo criado. O elemento central deste livro, por exemplo, é o fato dos soldados terem acima de 75 anos, inclusive é o que dá título à obra. Mas qual a implicação deste fato? Nenhum. O livro não explora nenhuma reflexão ou argumento que parta deste fato, que torna-se praticamente irrelevante ao longo da trama. Por vezes até me esquecia que os protagonistas eram velhos, já que se comportavam como adolescentes na maior parte do tempo. Se a questão da “velhice” foi pouco explorada, a questão da “guerra” foi pior ainda. Os motivos que levaram à humanidade em entrar em guerra com diversas raças alienígenas é simplesmente ignorado, passando a sensação de uma guerra vazia e desnecessária. Enquanto o livro revelava o funcionamento de seu universo amarrava bem a trama e conseguia manter meu interesse. Descobrir o porquê os alistados são velhos (spoiler: ao contrário do que aconteceria no caso brasileiro, não é por questões previdenciárias), como funciona certas tecnologias, como se dá o treinamento e etc é bastante interessante. Quando os mistérios se findam, sobram as descrições rasas dos acontecimentos e os excessivos ganchos para uma continuação do livro. Ao colocar o universo fantástico criado como o aspecto central da trama, o romance torna-se expositivo e, muitas vezes, incapaz de amarrar todas as questões apresentadas, tornando-se pouco coeso. Jogando os personagem, acontecimentos, discussões e problemáticas como “pano de fundo” do universo criado. São descritas várias raças alienígenas, todas vindas do nada, acabando em nada. Várias tecnologias que não acrescentam algo relativo à trama e vários personagens e argumentos que pouco são explorados. O sentimento de frustração deriva da impressão de que o livro poderia mais e que John Scalzi conseguiria, se assim tivesse decidido, explorar melhor as problemáticas propostas ao início de sua obra.

Uma tendência editorial?

Parece-me que a construção de universos largos tornou-se uma tendência dentro do mercado editorial de ficção científica e fantasia, visto os maiores best sellers destes gêneros nos últimos anos. Livros independentes, com um começo, meio e fim, parecem cada vez mais escassos, sobretudo em um mercado pouco desenvolvido como o brasileiro. Isto implica no esticamento da trama para englobar 3 ou 4 livros diferentes, o foco na descrição das peculiaridades do universo que toma espaço dos acontecimentos e dos personagens e, consequentemente, uma falta de coesão da obra.

Claro, tudo isso não passa de um “achismo” de minha parte, baseado na sensação causada pela leitura de um dos novos best sellers da ficção científica. É preciso fazer levantamentos, estudar outros casos para que seja possível afirmar a existência de uma tendência ou não. Mas, qual sua opinião, caro leitor? Existe a tendência editorial em publicar apenas séries de livros? Na sua opinião estas séries conseguem amarrar bem seu universo com a “história” em si?