Trasgo ano 1: A revista independente de autores nacionais

Tive meu primeiro contato com a Trasgo em buscas por fã-clubes brasileiros de ficção científica. A Trasgo não é bem um fã-clube, é bem mais do que isso: uma revista de autores nacionais e independentes de ficção científica e fantasia. A revista esta ativa desde 2014 com lançamentos trimestrais, atualmente encontra-se em sua 17ª edição. Um trabalho independente, porém não amador, já que os contos não são apenas selecionados como revisados e seus autores remunerados. Distinguindo a revista de outras plataformas de auto-publicação que, infelizmente, acabam dificultando a seleção de bons textos.

Trasgo: Ano 1

Capa do livro impresso

A revista mantém publicação digital, tanto em formado PDF quanto em arquivos próprios para leitores de ebook. Estando todo o acervo gratuito em seu site. Ano passado, entretanto, iniciaram uma campanha para sua primeira publicação física, através de um financiamento coletivo. Eis que surge “Trasgo: Ano 1” reunindo as quatro primeiras edições da revista e um bônus de 3 contos inéditos, escritos pelos três membros da equipe Trasgo.

Quase 6 meses após minha contribuição ao projeto, o aguardar ansioso da impressão dos exemplares, erros no envio do livro e quase descrença de que um dia receberia, tenho em mãos o livro impresso de forma independente, sem nenhum selo editorial ou de gráfica. Financiado exclusivamente pelos fãs do gênero e dedicação de um jovem grupo de escritores. Uma boa resposta para editoras que publicam o gênero mas relutam em publicar qualquer autor nacional – quanto mais autores iniciantes e nacionais.

O trabalho de editoração da revista – agora num formato de livro – é muito bom, deixando pouco a desejar em relação às publicações de grandes editoras. A fonte é agradável, o papel da página tem uma boa qualidade e o projeto gráfico é interessante, contando até mesmo com uma fotografia acompanhada de uma breve biografia do(a) autor(a) ao fim de cada conto. Alguns ou outros deslizes de revisão ali e acolá, perfeitamente compreensíveis para um trabalho quase artesanal como imagino ter sido. Infelizmente o material utilizado para produzir a capa tem uma qualidade bastante inferior se comparado aos livros editoriais. A película de plástico que reveste a impressão se desprende facilmente da capa, criando marcas de uso muito facilmente. Me desagradou também a falta de brilho na edição da imagem da capa. Pode ser meu exemplar, mas achei a gravura – muito bonita por sinal – feita pela ilustradora Kelly Santos muito escura na impressão, sendo de difícil compreensão em ambientes sem muita iluminação.

Interior do livro: marcação entre capítulos.

Quanto ao conteúdo em si: existe grande diversidade temática e de estilo, o que mostra a boa seleção feita pela equipe da revista. E, obviamente, certa variação de qualidade entre os contos. Não sei se devido a minha leiguice em literatura fantástica, de onde deriva um menor rigor analítico, ou pelas temáticas dos contos de especulação científica, mas os contos de fantasia me agradaram mais, numa média, do que os de ficção científica. Sobretudo aqueles com inspirações do realismo fantástico e Neil Gaiman.

Entre os contos que me chamaram a atenção posso citar alguns: Azul, Hamlet: Weird Pop, A maldição dos Borboletas Negras, O empacotador de memórias, Viral, Arca dos Sonhos, além dos 3 últimos contos e inéditos. Não que o restante sejam ruins, no geral a qualidade é boa, mas alguns recaem sobre alguns vícios comuns a escritores iniciantes e/ou atuais. Sobretudo a falta de compreensão da estrutura de um conto. Tentando encaixar informações em excesso e longos desenvolvimento de personagens em poucas páginas, como se tentasse criar todo um universo literário num único conto.

Trasgo: Ano 1, não é apenas uma coletânea de contos, é um ato de resistência literária. De força dos fãs do gênero em nosso país e da persistência de escritores independentes. Mas, apesar de tudo isso, ainda uma coletânea de bons contos. Que certamente vale a leitura, atenção e toda ajuda possível.