O Androide: um romance robótico nacional

Enquanto lia os excelentes livros da saga robótica de Asimov imaginava, e torcia para algum dia encontrar, um livro narrado sob o ponto de vista de algum robô. Mesmo ocupando papeis centrais das tramas de Asimov, a descrição do cenário e dos acontecimentos nunca era realizada sob a óptica robótica. Imaginava um dia encontrar uma obra talvez narrado por uma inteligência artificial ou ao menos descrita ao ponto de compreendermos suas formas de subjetividade programada. E, para minha grata surpresa, encontrei tal característica no livro nacional “O Androide”.

Capa do livro. Publicado pela editora Novo Século.

“O Androide” é o livro estreante do mineiro Paulo de Castro. O curto romance relata acontecimentos que se passam mil anos após a extinção da humanidade, causada por um apocalipse robótico. Apesar de ser escrito em terceira pessoa a narrativa progride sob o ponto de vista de JPC-7938, um dos poucos androides que não estão sob a influência de H1N1, a inteligência artificial que controla, de forma distópica e repressiva, os androides e robôs que herdaram a Terra; em seu esforço em tentar trazer a humanidade de volta a vida. O mais interessante, é como o ambiente e sobretudo as situações “sociais” – se é que se pode usar esse termo para a interação entre seres sintéticos – são descritas pelo ponto de vista de uma inteligência artificial racional e, em tese, incapaz de reproduzir sentimentos humanos. A narrativa também aborda outros personagens que, ao serem inseridos na trama, ganham um capítulo de “flashback”, contando sua história de criação e as situações vivenciadas durante a revolução robótica. Uma estrutura que dá bastante dinamismo ao livro e oferece uma melhor visualização do contexto e da ambientação do romance, permitindo que a história dos últimos momentos da humanidade seja contada, pouco a pouco, numa espécie de montagem de quebra-cabeça. Uma estrutura que me lembrou bastante os episódios de LOST.

A escrita de Paulo de Castro é surpreendentemente muito boa. Já tive contato com outros livros do selo “Novos Talentos da Literatura Brasileira” da editora Novo Século que deixam bastante a desejar neste quesito, o que me fizeram descrente quanto a qualidade literários dos livros publicados. Mas este, em particular, possui uma escrita bastante rica e madura, sobretudo para um livro estreante, deixando pouco a desejar as produções estrangeiras. A maturidade também está presente no enredo, que se desvencilha de vícios chatos e irritantes das produções mais recentes do gênero, talvez pelo fato do público alvo não ser os jovens-adultos. Até que o autor me desminta lançando uma sequência, o livro não faz parte de nenhuma trilogia, o que torna seu enredo interessante durante toda a trama, que nunca se arrasta ou cria pontas soltas apenas para serem respondidas em possíveis continuações, apesar do final relativamente aberto.

Apesar disto o livro, assim como a maioria das obras estreante, tem suas falhas. Construir todo um universo lógico futurista não é tarefa fácil, alguns pressupostos dos quais o livro partem só fazem sentido se ignorarmos possibilidades bastante plausíveis para um futuro como o da trama. A revolução robótica, por exemplo e sem entrar em muitos spoilers, só foi possível graças a uma atualização no sistema operacional dos androides. É de se estranhar que todos os robôs e androides fabricados em diferentes fábricas possuam o mesmo sistema operacional comercial. Também é estranho que seres sintéticos que se conectam entre si via tecnologia de rede ainda insistam em comunicação oral ou em reproduzir hábitos humanos, aliás, até mesmo a corporalidade se torna uma questão aparentemente desnecessária para eles. Ou, ainda, a necessidade em se ter a ajuda de uma androide “fêmea” para gerar um feto. Outro prolema recorrente do texto é a transição abrupta do espaço-tempo. Esta é uma característica clássica da “ficção científica hard”, muito comum na série Fundação de Asimov, por exemplo. Mas aqui ela parece mais um problema de escrita do que um recurso narrativo. Vezes ou outra tinha que reler um paragrafo que marcava o deslocamento dos personagens do Brasil à Europa, por exemplo.O ritmo da descrição dos deslocamento dos personagens é bastante inconstante durante o romance. Hora o deslocamento numa avenida dura páginas, hora a descrição joga os personagens do outro lado do mundo em questão de frases, tornando difícil visualizar o ambiente em que os personagens se deslocam e tirando um pouco da credulidade da trama. Sobretudo quando os protagonistas começam a serem perseguidos por H1N1, que mantém controle sobre todas as regiões do mundo. Além disto a trama também esbarra em alguns clichês na construção de personagens e nas falas e apela, vez ou outra, para as coincidências um tanto quanto exageradas.

“O Androide” não é um livro imune de falhas, tão pouco se tornará um clássico mundial da ficção científica, mas certamente um exemplo de um bom livro, com uma ótima narrativa, da produção atual do gênero em terras tupiniquins, tendo muito mais acertos do que erros. A historia que flerta com reflexões filosóficas e nos coloca para ver o mundo pelos olhos artificiais de androides, e a refletir sobre nós mesmos, é uma recomendação fácil. Já seria por si só, ser escrita e ambientada no Brasil serve, contudo, como um motivo adicional para os fãs do gênero se arriscarem nesta terra devastada – ou seria, salva – pós apocalipse robótico.