Branco Sai, Preto Fica: uma distopia marginal brasileira

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Nenhuma cidade brasileira representa tão bem as contradições existentes em nossa estrutura social quanto Brasília. É na cidade em forma de avião que se localiza o cérebro e o coração de nosso poder político, uma projeto da ambição política, erguido pelo suor de muitos trabalhadores pobres, impedidos de colherem os frutos que plantaram no planalto central. De um lado a riqueza, o planejamento, o poder, a voz política; do outro, a pobreza, a urbanização desordenada e irregular e a falta de voz e de poder. Foi nesta periferia do distrito federal, na região de Ceilândia, que a Polícia Militar realizou uma operação de intervenção a um baile black, no dia 5 de março de 1986. Ação truculenta e racista, como as costumazes abordagens à qualquer movimentação cultural compreendida como perigosa aos olhos do poder. Esta abordagem resultou em ferimento e mutilações aos jovens negros ali presentes e, 29 anos depois, o tema para a criação deste filme.

“Branco Sai Preto Fica” foi a frase dita por um dos policiais durante a abordagem que motivou a criação do filme. Ao invés de um documentário com as vítimas da operação policial, o diretor Adirley Queirós preferiu realizar um filme de ficção científica, utilizando para isso as vítimas como atores e reconstruindo a história através de uma imaginação e narrativa ficcional. O resultado é um filme que não deixa de cumprir seu papel como denúncia e crítica à realidade brasileira, sobretudo à condição racial e à situação de marginalidade vivenciada por negros; mas funde isso a uma interessante narrativa e um estilo pouco explorado pelo cinema brasileiro.

O filme segue a história de 3 personagens: Marquim e Sartana, sobreviventes da abordagem policial de 86 – na ficção e também na realidade – que convivem com suas limitações provocadas pela violência policial: um é cadeirante, outro teve sua perna amputada e utiliza uma prótese. O outro personagem é Dimas, um agente terceirizado do estado brasileiro de 2073, que retorna ao passado – nosso presente – na missão de encontrar provas que penalizem o Estado brasileiro pela violência que é exercida contra as populações negras e marginalizadas, para que suas famílias sejam indenizadas. Não para que se adote outra política social, obviamente, afinal, ainda será o Brasil. Paralelamente a isso, Marquim e Sartana planejam lançar uma bomba sobre Brasília, como forma de vingança ao Estado repressor. Mas não uma bomba qualquer, uma bomba carregada do mesmo material perigoso que motivou a abordagem repressiva ao baile de 86: a cultura marginal. Por isso a carregam com rap, tecno forró e outros estilos musicais marginalizados.

Por ser uma produção independente o filme contou com pouco orçamento, mesmo assim é bastante eficiente em criar um cenário distópico. Apesar dos fatos relatados ocorrerem em nosso presente, a ambientação se dá numa realidade levemente futurística, um recurso visual para tornar mais clara as contradições já existentes em nossa estrutura social. Como se os problemas de nossa realidade fossem ampliados em sua escala, levantando uma questão: o filme é de fato distópico ou apenas representa nossa realidade com recursos que a tornem mais clara? No filme a cidade de Brasília é isolada de suas regiões periféricas. Seu acesso se dá através de um passaporte inter municipal. Esta política restringe a população pobre e majoritariamente negra a viverem nas áreas periféricas, onde existe toque de recolher e constante vigília policial. O cenário é carregado, sobrepondo-se, sempre, tons de marrom e cinza. Ceilândia parece uma cidade degradada  e semi-abandonada construída de ferro velho enferrujado, grades e placas equilibrando-se em sobrados. Combinando com a construção dos personagens, todos angustiados, traumatizados e excluídos da sociedade. Alguns outros elementos de ficção científica também se fazem presente, Sartana, por exemplo, trabalha como uma espécie de técnico ilegal de próteses. Próteses futurísticas que rodam um sistema operacional próprio e identificam seu portador. A simbiose entre corpo (enjaulado, enquadrado e controlado) e máquina (ou metal velho, descartado e encontrado na periferia) também é outra discussão que se faz sutilmente presente no filme.

“Branco Sai Preto Fica” é uma obra bastante singular do cinema nacional, é também uma obra bastante singular para a ficção científica como um todo. Mescla ficção e realidade, numa composição mista entre um documentário e um scifi. Por ser uma obra marginal, feita por e para as pessoas da periferia, talvez não agrade a todos. O baixo orçamento tornam as representações científicas um tanto destoantes às clássicas representações. A nave espaço-temporal de Dimas, por exemplo, é apenas um container de metal vazio. O ritmo do filme também é lento, algumas cenas são bastante repetitivas e a história é lançada de forma fragmentada e muitas vezes desconexa. “Branco Sai Preto Fica” pode não ser o melhor filme de ficção científica, até mesmo por apenas tangenciar as temáticas do gênero, mas certamente é uma grande singularidade de nosso cinema. Merece ser assistida por sua importância política, sua estranha beleza de ferro e por seu pioneirismo marginal.