O espaço e o lugar entre “a cidade e a cidade” de China Mieville

“A cidade e a cidade” é produto de um dos raros momentos em minha vida em que compro um livro por impulso. Sendo assim só conhecia aquilo que estava exposto na capa e na costa do livro: Um elogio de Neil Gaiman estampado antes mesmo do nome do autor e uma sinopse sobre um romance policial ambientado numa cidade que ocupa o lugar de uma outra cidade. Logo concluí que a história e o estilo poderiam se assemelhar ao “Lugar nenhum” de Neil Gaiman, uma cidade escondida sob uma outra cidade, habitada por sub-cidadãos, marginais, mercados negros e assim por diante. Foi uma feliz surpresa descobrir que estava errado e que a ambientação de “a cidade e a cidade” é um dos mais criativos e instigantes cenários distópicos que tive contato.

Edição comercializada no Brasil pela editora Boitempo

China Melvile é um escritor britânico referência do estilo “new weird”, um sub gênero literário que procura subverter alguns clichês mesclando vários elementos da ficção científica, fantasia, terror, noir e etc. Também é reconhecido por sua militância de esquerda e seu viés marxista. Não atoa seus livros são publicados no Brasil pela editora Boitempo, importante editora da área das ciências humanas e estudos marxistas, mas pouco influente ou reconhecida dentro do mercado de romances, menos ainda da ficção científica. Tornando, infelizmente, o livro pouco conhecido entre os leitores Brasileiros.

“A cidade e a cidade” conta a história de Borlú, um investigador da policia de Beszel – existe um acento agudo no Z, impossível de ser aplicado nas normas pt-br de digitação   uma cidade fictícia do leste europeu. O enredo e desenvolvimento do livro envolve assassinatos, investigação policial e conspiração. A trama por si só é bastante interessante, mas é na construção do universo distópico que o livro de fato se distingue. Ao contrário do que imaginava ao ler a sinopse, Beszel e Ul Qoma são duas cidades que ocupam geograficamente o mesmo espaço. Não são cidades vizinhas ou dividades por um muro, como as antigas Berlim ocidental e oriental, nenhuma delas existe em outro plano existencial como no livro de Neil Gaiman. As duas cidades ocupam, de fato, o mesmo espaço físico. Para piorar a situação cada uma delas constitui uma cidade-estado diferente, com seus próprios costumes, leis, língua e alfabeto. Você deve estar se perguntando: “como as pessoas saberiam em qual cidade estão? como o poder público operaliza a divisa entre as duas cidades?” e é nisto que se encontra a genialidade e criatividade de Mieville para criar este cenário distópico.

Espaço não é lugar

A existência das duas cidades em um mesmo espaço só é possível, mesmo na ficção, porque a espacialidade é algo distinto da localidade. Podemos compreender o espaço como um atributo físico, é aquilo que medimos por metros, quilômetros e etc. É algo dado pela natureza física da matéria. Local ou lugar, por sua vez, é uma construção social, uma espécie de “espaço simbólico”. Não tem haver com o espaço físico e sim com os padrões de ocupações feita pelas pessoas e nossa percepção para encara-los. A região central de grandes cidades, São Paulo por exemplo, é tomada por feirantes, comerciantes e transeuntes durante o dia, à noite porém, é lugar da marginalidade (no sentido físico da palavra), do consumo de drogas, da prostituição, dos moradores de rua, dos bares noturnos e etc. Por mais que o espaço seja o mesmo, as ruas sejam as mesmas, o lugar é outro. O modo pelo qual as pessoas ocupam o espaço e o modo pelo qual elas os percebem é o que define a localidade daquele espaço. Beszel e Ul Qoma são dois lugares que ocupam o mesmo espaço, durante o mesmo tempo. Mas como isso é possível?

Aprendendo a desver

Quando nos referimos à uma avenida como a avenida Paulista, em São Paulo, normalmente ressaltamos seus prédios altos, seus centros comerciais espelhados, as agências bancárias gigantes, a livraria cultura, o parque Trianon, o Masp e toda a modernidade do primeiro mundo. Também podemos citar sua vida noturna com rap, jazz, os feirantes da calçada, os músicos independentes, os skatistas e etc. Mas raramente a citamos como a avenida dos moradores de rua, das agressões homofóbicas, dos pedintes, da especulação imobiliária e etc. Isso porque somos condicionados a desver aquilo que não queremos reparar. E é assim que Beszel e Ul Qoma são apartadas na obra de Mieville. As crianças são ensinadas, desde pequenas, a desverem as localidades da outra cidade. Afinal, se a localidade é uma construção social, a percepção sobre ela é algo que aprendemos e internalizamos ao longo do nosso aprendizado. Os habitantes de uma cidade são treinados para identificarem os padrões de vestimentas, modo de andar e falar de seus cidadães, os estilos arquitetônicos de seus prédios e os modelos mais comuns de seus carros, ou seja, as marcas simbólicas que marcam sua localidade ou “espaço simbólico”, desvendo tudo aquilo da cidade oposta. Por mais que as pessoas convivam no mesmo espaço, nas mesmas ruas (que possuem nomes diferentes em cada uma das cidades) apenas observam aquilo que faz parte de sua localidade, desveem pessoas, lojas, prédios -ou andares ou salas, pois alguns prédios são compartilhados entre as cidades- veículos e assim por diante.

Uma distopia da indiferença e da segregação

Recorte de um quadro do pintor holadês Escher e sua ambiguidade espacial.

O atravessar de uma cidade-estado a outra, assim como na maioria das fronteiras políticas do mundo, é controlado. Estar em Ul Qoma é, portanto, desver tudo que estiver em Beszel, por exemplo. O simples ato de reparar em elementos que estão na localidade da outra cidade é demonstrar que seu ponto de vista (no caso seu olho) encontra-se também nesta localidade, é desrespeitar a divisão imaginária existente entre as cidades. Deixar-se reparar olhando um prédio de outra cidade, por exemplo, é assumir que “pulou o muro” entre as cidades de forma ilegal, uma grave infração em ambos os locais. As pessoas não apenas aprendem a desver por questão de constrangimento mas também, e sobretudo, por questões legais. A “brecha” é a entidade jurídica-legal responsável pela vigilância das fronteiras e punição dos infratores. Uma entidade que, pela própria natureza de sua existência, adquire poderes que transcendem à das duas cidades e ocupam uma terceira localidade, existente entre a cidade e a cidade. Mais uma particularidade da incrível ambientação criada por Mieville.

É de se imaginar o quão cômica cada situação se torna, de tão absurdas. E de fato, os acontecimentos ultrapassam a fronteira do acreditável: a negligência em se ajudar alguém do seu lado por estar em outra cidade, um assassino poder correr livremente entre pessoas que se encontram em outro estado, transeuntes desviando de forma indiferente por algum lixo jogado em outra cidade, botões proibidos de serem pressionados por determinadas pessoas (proibidos de serem reparados) em elevadores, bancos de praça inacessíveis apesar de vazios, e assim por diante. Mas, ao esticarmos este absurdo à nossa realidade, percebemos que ele não é tão absurdo assim, pois é plausível de existência. Qual a diferença entre as situações relatadas e a proibição de um mexicano cruzar uma linha imaginária que divide seu país aos EUA? Ou de pessoas passando indiferentemente ao lado de um pedinte na rua? Construir muros imaginários, delimitar linhas divisórias inexistentes não é algo exclusivo de Beszel e Ul Qoma… Se abrangermos tempos passados veremos situações muito próximas à distopia de Mieville. O que seria o apartheid sul africano e americano se não a co-existência de uma cidade branca e uma cidade “de cor” (como eles chamavam) numa mesma espacialidade? Uma segregação radical de prédios, banheiros, acentos em transporte público, bairros e empregos entre brancos e negros? E o que seria o nosso racismo institucionalizado? Ou a indiferença com a qual lidamos a desigualdade e segregação que trombamos em nosso cotidiano?

Por mais que “A cidade e a cidade” não seja escrito sob o estilo de uma distopia clássica, assemelhando muito mais à um thriller policial, China Mieville foi capaz de criar não apenas um dos mundos distópicos mais criativos, como também um dos mais, assustadoramente, plausíveis e humanos de que tive contato. A obra não é das leituras mais fáceis, a linguagem é propositalmente truncada, como um livro mal escrito, na tentativa de reproduzir um estrangeiro escrevendo numa língua não nativa – já que o livro é escrito sob o ponto de vista do investigador Borlú. Mas entre a cidade e a cidades encontram-se reflexões que podem extrapolar os limites de uma investigação policial, de uma distopia qualquer ou da ficção científica. “A cidade e a cidade” é uma obra que, certamente, merece ser lida e discutida.