O capitalismo pós-material de “Quinze Milhões de Méritos” em Black Mirror

Black Mirror é uma série de ficção científica tão emblemática e coesa que virou um termo na internet, uma gíria para se descrever certas situações sociais. “Isso é muito black mirror” é usado para descrever situações onde a tecnologia evoluiu ao limite do distópico, flertando com certo risco ao futuro da sociedade como a conhecemos. É comum encontrar a definição de Black Mirror como “uma série distópica sobre os perigos da tecnologia”. Apesar de cada um dos episódios explorar o uso de certa tecnologia ainda inexistente, acredito que a obra foca-se muito mais nos problemas sociais e como eles podem desencadear distopias ao empregarem novas técnicas para antigos fins. Creio que a série – assim como a maioria das boas obras do gênero – é muito mais sobre a exploração social, sobre política, estratificação social, a incapacidade de lidar com o luto, sentimentos vingativos e outros elementos que compõem a sociedade e a humanidade, do que, propriamente dito, gadgets, projeções holográficas, robôs, inteligência artificial e tecnologias em geral.

Para ilustrar isso tomemos como exemplo o segundo episódio da primeira temporada, denominado “Quinze Milhões de Méritos”. Apesar de retratar uma sociedade subjugada por uma tecnologia de exploração da força de trabalho em troca de moedas virtuais, o episódio imagina, na realidade, uma sociedade de exploração capitalista em um futuro onde as necessidades materiais já estariam superadas, ou simplesmente suprimidas.

Capitalismo virtual

Definir “capitalismo” não é simples, é um conceito complexo com muitas divergências. Mas de maneira geral – e muito, muito simplista – podemos compreender o capitalismo como um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, as trocas “voluntárias” mediadas por alguma moeda e a finalidade do lucro e da acumulação de capital. Deixando de lado  as principais polêmicas do capitalismo por enquanto e para evitar rage, podemos observar uma contradição entre a busca do lucro e a consequente necessidade de produção e venda de mercadorias e a existência finita de recursos naturais. Como um sistema que requer a produção constante para gerar lucro se manterá existindo em um mundo com recursos limitados? É neste sentido que surgem as correntes ecocapitalistas ou “capitalismo sustentável”, uma tentativa de manter a produção em alta sem o completo esgotamento dos recursos naturais, mediante substituição de matéria prima e aplicação de técnicas menos invasivas ao meio-ambiente.

Apesar do episódio “Quinze Milhões de Méritos” não explorar ou contextualizar o mundo fora da torre em que ele se passa, é uma suposição bastante válida pensarmos que o planeta chegou ao seu esgotamento de recursos ou passou por alguma catástrofe. Sobretudo pela existência de comida sinteticamente produzida e a completa ausência de luz solar. Como manter um sistema capitalista em um ambiente incapaz de produzir mercadorias a serem vendidas? A solução encontrada pela distopia do seriado foi engenhosa e relativamente plausível: a venda de mercadorias virtuais. Ao invés de trabalharem em linhas de produção de materiais mercadológicos os trabalhadores precisam pedalar numa bicicleta a fim de gerar energia para que o prédio continue funcionando. Ao invés de comprarem artigos materiais, usam os créditos adquiridos para comprar aplicativos digitais, assistir programas televisivos e personalizar o seu avatar virtual – uma espécie de representação digital de si mesmo – comprando blusinhas, penteados e objetos de customização em geral. Algo assustadoramente parecido com a customização via micro-transações dos jogos mais recentes. E a parte mais cruel: enquanto pedalam ou se distraem no quarto (uma cubículo com telas em todas as paredes) são invadido por publicidades, que requerem uma certa quantia de “méritos”, a moeda local, para que possam pular. Algo assustadoramente parecido com o youtube.

Problemas materiais

Partindo do uso de uma tecnologia ainda mas nem tanto inexistente o episódio se mostra uma crítica não à evolução tecnológica, mas aos problemas trazidos pelo modelo de exploração adotado pela sociedade e possibilitado pela tecnologia. Problemas que, apesar de partirem de um sistema virtual, são muitos próximos, para não dizer exatamente, os mesmos problemas materiais de nossa realidade.

Metrópolis é muito Black Mirror!

Recentemente escrevi como o filme Metrópolis explora a estratificação social causada pelo sistema de produção. Aqui temos uma estratificação muito semelhante, de um lado os ricos donos de canais e apresentadores de programas, com suas roupas chiques e coloridas, de outro os pedaladores com vestes cinzas, ainda existe uma terceira camada social, os obesos, incapazes de ajudar na produção energética. Esses são faxineiros ou humilhados nos programas de TV. Assustadoramente parecidos com os programas televisivos brasileiros, como Pânico. Inclusive uma das cenas de abertura do episódio me lembra muito uma das cenas mais icônicas de Metrópolis: a descida  aos postos de trabalho pelo elevador, algo comum às duas obras.

Se na torre faltam produtos materiais, tudo é monetizado e controlado enquanto mercadoria, do sabonete dos banheiros comuns ao direito de pular uma publicidade. Publicidade que além de servir como propaganda aos programas vendidos também desempenha uma importante função, de vender a ilusão de ascensão social e manter os trabalhadores disciplinados enquanto espera sua vez de “vencer na vida”, além de os entreter-los e os fazerem suportar – e amenizar – a realidade. Muito dos programas capitaneiam o desespero dos participantes em “subir na vida” os humilhando e ridicularizando sua situação publicamente. Assustadoramente semelhante a grade dominical brasileira.  É através desta publicidade que o protagonista tem a ideia de usar todos seus créditos para compra a oportunidade para uma amiga ser testada no “show de talentos”. Que  é recusada pelos jurados, que a humilham e a constrangem -com ajuda de uma droga que dopa o participante – a aceitar um convite de protagonizar filmes eróticos. Isso desperta a ira do protagonista que, temporariamente, tem um vislumbre de sua condição de classe e, numa tentativa de vingança, se inscreve novamente ao programa para denunciar o sistema a todos os telespectadores. Seu discurso reflete a crítica ao sistema, um discurso funcional no contexto do episódio mas também, e sobretudo, no capitalismo material o qual vivemos.

E vocês não nos veem como pessoas.
Vocês não veem pessoas aqui.
Só objetos. E quanto mais falso o objeto, mais vocês amam.
(…)
Só conhecemos objetos falsos e coisas para comprar.
É como nos comunicamos, como nos expressamos. Comprando coisas.
(…)
Mostrem-me algo real, gratuito e bonito. Não tem, não é?
Isso nos quebraria. Estamos muito anestesiados para isso.
Nossas mentes sufocariam. Não aguentaríamos coisas boas.
Por isso que quando encontramos algo maravilhoso, vocês racionam, e só então ele é ampliado, embalado e distribuído.
(…)
enquanto pedalamos, indo para onde? Fornecendo energia para quê?

Por fim podemos identificar a existência daquilo que Karl Marx denomina de alienação, a condição da perda da consciência e da capacidade crítica. Ao fim do discurso o protagonista é convidado a integrar a grade de um canal. Ao aceitar o convite seu discurso perde seu caráter crítico e torna-se mais uma atração televisiva para entreter os trabalhadores. É coaptado pelo sistema. Importante também citar , por fim, a presença do personagem que trabalha na bicicleta ao lado do protagonista, um exemplo personificado da alienação. Um sujeito bastante intragável, destilando seu ódio contra pessoas obesas, as compreendendo como naturalmente inferiores, reproduzindo a ilusão de ascensão social através da crença de que todo “dinheiro” provém um mérito pessoal que o legitima enquanto ser superior, além de um comportamento bastante machista e reduzindo pessoas a mercadorias. Algo assustadoramente parecido com muitas pessoas  encontradas em nossa sociedade e sobretudo na internet.

Isso é tão Black Mirror

Apesar de representar uma sociedade distópica do futuro, que emprega técnicas e instrumentos ainda inexistentes, o segundo episódio de Black Mirror, na realidade, discute sobre problemas sociais reais existentes em nossa sociedade: a estratificação, a desigualdade social, a ilusão de ascensão e do direito à escolha, a mercantilização da vida, a naturalização das injustiças, a alienação e o papel alienante da mídia, entre outros. A sociedade criada pelo seriado funciona como uma alegoria, uma caricatura, de nossa própria sociedade. Uma distopia, porém uma distopia humana. Algo assustadoramente parecido com nossa realidade, algo tão Black Mirror.