Nas profundezas do “Silo” de Hugh Howey

Centenas de anos após um holocausto nuclear, os descendentes dos sobreviventes vivem num enorme “silo”, construído sob a terra. As toxinas liberadas pelas bombas e a destruição do ecossistema tornaram a vida sobre a superfície impraticável, forçando a humanidade ao refúgio no subsolo. Esse é o mundo criado por Hugh Howey para ambientar sua primeira obra literária,  “Silo”, o primeiro livro de uma economicamente bem sucedida trilogia.

edição nacional do livro, publicada pela editora Intrínseca.

Howey aproveita-se da onda distópica criada por “Jogos Vorazes” para emplacar sua produção independente e alça-la a best seller. Apesar de fugir de clichês óbvios do gênero, como romances forçados ou protagonistas inseguros e adolescentes, Silo esbarra em vícios de obras construídas segundo o manual de venda: Capítulos desnecessários, tramas alongadas, e excesso de sub-tramas para alongar a obra e render uma trilogia. Mesmo assim seu mundo criado é interessante, bastante perspicaz e muito eficiente na construção do enredo.

“Silo” é uma construção cilíndrica subterrânea de 144 andares interligados por escadas em espiral, na qual toda a humanidade convive sob um rígido conjunto de regras. Apesar de ser um local bastante hostil, escuro e claustrofóbico, a distopia foca-se mais em elementos que transpassam essa ambientação inicial do que a própria dificuldade em se viver trancafiado no subsolo. A organização sócio-política, por exemplo é um dos primeiros elementos distópicos a nos ser apresentado. Como é possível imaginar o Silo é estratificado em classes sociais que ocupam diferentes andares da construção. Enquanto os mais ricos lidam com os problemas administrativos e vivem nos andares superiores, os mais pobres vivem nas profundezas, em meio à maquinaria que mantém o lugar funcionando. Algo bastante semelhante ao HQ Perfura Neve (que deu origem ao filme Expresso do Amanhã). Apesar da relação não ser – a princípio – muito conflituosa, a organização social está longe de ser democrática ou cidadã. Mas o real foco e a grande questão do livro é a relação do Silo com o mundo exterior.

Logo de cara sabemos que sim, é permitido sair do Silo, porém sua volta é impossível, o gás tóxico logo executa quem quiser se aventurar na paisagem morta. Ganhar uma “visita à superfície” é o crime capital daquele estado subterrâneo. É para lá que são mandado os criminosos, os assassinos, os dementes e os loucos que indicam “sentir vontade de sair”. Os escolhidos para subir precisam também cumprir uma tarefa, limpar a lente das câmeras que filmam a paisagem do horizonte e transmitem num telão no primeiro andar. A princípio parece ser uma grande contradição uma sociedade distópico e quase ditatorial que vive no subsolo ter a permissão de enxergar o cenário da superfície. Acontece que este é justamente o gancho para entrar no real elemento distópico da obra, que não é a vida no subsolo, a estratificação social ou a repressão estatal mas sim o controle da informação, em suas mais variadas formas, como textos , falas e imagens. Se o começo do livro sugere que o controle do silo é realizado pelas administradores e políticos dos andares superiores, logo somos surpreendidos em constatar que os reais vilões da história são os técnicos de informática e os responsáveis por gerir os computadores e toda informação que circula dentro do cilindro subterrâneo. O cenário de isolamento e reclusão da sociedade que vive no silo torna o enredo o ideal para explorar a questão da informação e todas as técnicas de controle de comunicação. Se estivéssemos isolados do mundo, qual a possibilidade de termos uma interpretação do mundo distinta daquela que nos é oferecida por um superior?  Não é gratuito, por exemplo, que a paisagem morta seja transmitida em telões no andar superior do silo, assim como não é gratuito – e literalmente não é – o alto preço cobrado pelo envio de e-mails. Controlar aquilo que os habitantes subterrâneos acreditam ou conhecem é fundamental para que o silo continue a traçar o misterioso caminho para o qual foi planejado. Cortar ou orientar a comunicação é essencial para controlar todo o fluxo populacional. E é a partir desta problemática que Juliette – a personagem protagonista do livro – faz sua jornada em busca de justiça e da verdade.

Neste sentido a obra aproxima-se mais aos clássicos da distopia 1984 e Fahrenheit 451, onde a dominação se dá de forma mais sutil, mais inconsciente e sistêmica do que as atuais obras de distopia. Apesar da grande distância entre as obras, Silo é um livro capaz de criar, no fundo escuro do subterrâneo, uma ambientação extremamente interessante, claustrofóbica, angustiante e, assim como toda boa distopia, frutífera para reflexões e paralelos com a nossa própria realidade.