Luzes, sombras, movimento e a estratificação social em “Metrópolis” de Fritz Lang

Metrópolis de 1927 não é apenas um dos fundadores do gênero ficção científica no cinema, um dos mais importantes títulos do expressionismo alemão ou uma das principais obras do cinema mudo. Metrópolis é também um dos mais influentes filmes de todos os tempos, seja por sua avançada e surpreendente técnica de efeitos especiais, pela temática social atrelada à uma interessante narrativa ou também, e sobretudo, pela inspirada caracterização e ambientação. Um marco que influenciou praticamente todos os filmes subsequentes do gênero, como THX 1138, StarWars, Blade Runner, Duna, Alien e muitos outros, a estética de Metrópolis tornou-se, basicamente, a imagem padrão de “cidade do futuro”, estando presente até mesmo no imaginário daqueles que nunca assistiram ao filme.

As luzes e as sombras de Metrópolis

O filme relata uma sociedade industrial distópica no ano de 2027, onde a desigualdade social torna-se tão radical que duas formas distintas de organização convivem numa mesma cidade. Na superfície convivem os administradores da cidade e seus filhos. No subsolo vivem os operários. De um lado a alegria dos jovens que se divertem e exercitam-se em vestes claras no clube dos filhos, de outro os cabisbaixos, disciplinados e sujos operários que trabalham às sombras 10 horas diárias. Toda a estética do filme é trabalhada sobre a oposição entre as luzes, da superfície, e as sombras do subsolo, fazendo uso recorrente da iluminação técnica marca dos filmes do expressionismo alemão. As cenas ambientadas na superfície, por exemplo, ganham uma vinheta branca, enquanto as cenas do subsolo se apresentam numa vinheta negra. As vestes também seguem a mesma regra, de um lado roupas claras e bem cortadas, de outro vestes negras, sujas e simples. A estética do filme ressalta toda a estratificação social da cidade distópica, onde operários realizam uma extenuante jornada de trabalho a fim de manter a cidade funcionando para o usufruto das classes altas que vivem na superfície.

Homem-máquina

Outro elemento central da trama do filme é a relação, quase simbiótica, entre homem e máquina. A representação dos operários em sua jornada produtiva reproduz as críticas à revolução industrial e a precarização das condições humanas. Os operários são esquadrinhados e controlados em grupos, feito gado, enquanto o ritmo de trabalho é ditado pela máquina. Os takes rápidos, pouco comum no cinema mudo, reforçam a urgência e o ritmo acelerado e desgastante dos operários. Numa cena do filme, durante um delírio do protagonista, a máquina é representada como um demônio, o qual os trabalhadores devem se sacrificar e servir como alimento. Evidencia-se a preocupação do controle do homem pela máquina, que passará a funcionar como cérebro, enquanto a humanidade representaria uma simples mão de obra, uma ferramenta.

O ápice desta reflexão encontra-se na parte final da trama, quando somos apresentados ao Maschinenmensch (máquina-humano em alemão), uma espécie de robô, capaz de adquirir as feições humanas. Tal produto meio humano, meio máquina, é controlado pelo cientista maluco Rotwang, na tentativa de manipular os operários e convence-los a destruírem as máquinas e acabar, consequentemente, com a cidade e os senhores, num plano de vingança contra esses últimos.

Uma cidade distópica

Vale ressaltar a importância da construção de “Metrópolis” para o entendimento da estratégia narrativa do filme. O historiador José D’Assunção Barros dedicou-se em seu artigo “A Cidade-Cinema expressionista: uma análise das distopias urbanas produzidas pelo Cinema nas sete primeiras décadas do século XX” a análise da construção desta cidade. Segundo ele  a hipótese “ é a de que as cidades imaginárias sempre expressam, de alguma forma, os medos, angústias, anseios, esperanças ou demandas da sociedade que as produziram.” (pp. 162) Deste modo, ao analisar a construção imaginativa de Metrópolis, podemos compreender melhor a distopia construída em torno do filme. Segundo o autor, os medos e os receios inspiradores para esta obra em particular, os medos recorrentes neste contexto específico são:

“usos desumanos da tecnologia, as angústias relacionadas a expectativas do desemprego que poderia ser produzido através da substituição do trabalhador humano pela máquina, a desumanização cotidiana promovida pela rotina mecanizada, e o paradoxal isolamento do homem em um mundo superpovoado, socialmente dividido e envolvido pelo artificialismo e controle tecnológico” (pp. 165)

Segundo ele, tais medos seriam externalizados numa cidade com prédios ao mesmo tempo magníficos e sombrios, sóbrios e regulares, um ambiente perfeito para a solidão humana. Na superfície o contraste entre a grande altura dos prédios e as ruas estreitas criariam uma sensação de claustrofobia, a arquitetura urbana é um misto de hiper-modernismo e elementos góticos neo-medievais. A superpopulação se torna presente nas estradas engarrafadas e na aglutinação dos trabalhadores nas “cidades-moradias”. Destoando da “cidade de cima”, o subsolo é urbanizado por prédios simples e padronizados, verdadeiros condomínios de moradia. Esta diferença de arquitetura, segundo Barros, evidenciaria uma diferença entre a própria humanidade dos habitantes.

Uma obra de muitos significados

Como de costume, nesta coluna do blog, abordamos a construção do universo distópico e não necessariamente os acontecimentos da trama em si. Metrópolis é um filme que se mantém atual, apesar de ser produzido, surpreendentemente, em 1927. Aborda temas em voga – sobretudo no contexto de retrocesso social e trabalhista brasileiro – como a luta de classes, a exploração, a desigualdade e a estratificação social, o medo da perda do controle científica, a opressão dos homens pelas máquinas, uma reflexão sobre o papel de gênero e etc. Um ótimo exemplo de como a ficção científica é capaz de extrapolar o contexto tecnológico e realizar importantes reflexões sociais. O filme também utiliza uma interessante metáfora bíblica, desde o demônio-máquina até a torre de babel, e traz, sob forma de epigrama e epílogo a otimista  mensagem: O MEDIADOR ENTRE A CABEÇA E AS MÃOS TEM QUE SER O CORAÇÃO ! Que sugere formas de empatia como superação da estratificação e dicotomias sociais.

Metrópolis é um marco e uma das maiores obras primas da sétima arte, um filme indispensável para os amantes da ficção científica e do cinema como um todo. Apesar de ser um filme antigo tem um ritmo bastante acelerado se comparado a seus contemporâneos, continuando bastante divertido e impressionante, 90 anos após a sua produção.