Ficção científica nos cinemas e efeitos especiais: O caso do Planeta dos Macacos

Ao sair da sala de cinema não estava apenas empolgado com a trama de “Planeta dos Macacos: A Guerra”, o ótimo filme que fecha a excelente nova trilogia da série. Estava também impressionado com os efeitos especiais empregados na obra, em como tais recursos não se resumiam em pura pirotecnia, eram essenciais para reforçar o argumento do roteiro. Diria até mesmo que fundamentais para o filme, que seria impossível de ser produzido alguns anos atrás. Planeta dos Macacos é um ótimo exemplo de como a ficção científica, enquanto um gênero cinematográfico, mantém, desde seu primórdio, uma relação direta com o avanços dos efeitos especiais. Esse é o segundo texto da coluna “Metadados”, onde discutimos características próprias da linguagem da ficção científica, abordando, desta vez, a linguagem cinematográfica do gênero.

Ficção científica e efeitos especiais no cinema

É praticamente impossível pensar sobre a linguagem da ficção científica nos cinemas sem abordar a questão dos “efeitos especiais”. A relação é tão direta que fica difícil definir se os filmes de ficção científicas surgem a cada novo avanço de técnicas visuais ou, ao contrário, os avanços surgem em decorrência das exigências dos roteiros do gênero. Fato é que, existe uma obra cinematográfica de ficção científica demarcando cada um dos importantes avanços de técnicas de efeitos especiais, visuais e digitais, funcionando como um novo parâmetro para a produção de seus sucessores.

A história entre da ficção científica nos cinemas e os efeitos especiais começa no primórdio da sétima arte e das próprias técnicas visuais, com o filme “Viagem à Lua”, do francês Georges Méliès, produzido em 1902. A adaptação do romance de Julio Verne “Da Terra à lua” é um dos primeiros filmes da história do cinema, o primeiro a empregar efeitos especiais. Georges Méliès foi o fundador do primeiro estúdio cinematográfico da Europa e foi o inventor e percursor das técnicas visuais e da montagem. Ao misturar técnicas teatrais, performáticas e do ilusionismo – sua área de origem – com o universo do cinema, Georges Méliès foi capaz de produzir filmes que extrapolam a simples representação fidedigna do cotidiano, como a maioria dos filmes faziam desde então. Deste modo o cinema pode abordar temas fantásticos, futuristas e aprofundar em roteiros ficcionais, ao invés da simples filmagem de trens e transeuntes na chuva, distanciando-se do campo fotográfico e permitindo seu desenvolvimento enquanto uma arte autoral. “Viagem à Lua” é um marco do cinema e o filme estreante dos efeitos especiais.

Desde então diversos outros filmes do gênero marcaram as mudanças significativas nas técnicas empregadas, funcionando como marco de suas respectivas gerações. Entre eles podemos citar, em ordem cronológica:
O mundo perdido (1925) , de Harry O. Hoyt.

Mundo Perdido: O filme inovou ao representar dinossauros utilizando a técnica de stop motion em miniaturas. Posteriormente a técnica foi melhorada no filme “King Kong” de 1933.

Metrópolis (1927), de Fritz Lang
O Planeta dos Macacos (1998), de Franklin J. Schaffner: O primeiro filme da série já serviu como um marco da maquiagem nos cinemas.
2001: Uma Odisséia no Espaço (1969), de Stanley Kubrick

2001 Uma Odisseia no Espaço: É surreal, mas o filme foi produzido em 1969, estabelecendo um patamar alcançado apenas décadas depois.

Star Wars (1977), de George Lucas.
Tron (1982), de Steven Lisberger.

Tron: Foi um dos primeiros filmes a utilizar efeitos produzidos por computação gráfica em alta escala.

– Exterminador do Futuro 2: o Julgamento Final (1991), de James Cameron.
Jurassic Park (1993), de Steven Spielberg.

Jurassic Park: O filme alia computação gráfica e efeitos práticos, como robôs, para dar um visual fidedigno aos dinossauros.

Matrix (1999), das irmãs Wachowski.
Star Wars ep. 1 – A Ameaça Fantasma (1999), de George Lucas.
Avatar (2009), de James Cameron.

Avatar: Além de aperfeiçoar técnicas de motion capture, o filme foi estreante da técnica de filmagem diretamente em 3D, dando uma maior profundidade aos lindos cenários de Pandora.

Seria injusto, ainda, deixar de citar outros importantes filmes para a evolução da técnica em efeitos especiais fora do gênero da ficção científica. Como “Uma cilada para Roger Rabbit” de 1998, primeiro filme a misturar personagens animados à atores reais. E, obviamente, “Senhor dos Anéis”, de 2001, que elevou o padrão da computação gráfica e das modelagens 3D.

Os efeitos especiais contribuindo para a trama do filme: o caso de planeta dos macacos

Além de revolucionarem no emprego de novas técnicas visuais, a maioria dos filmes citados também possuem em comum a utilização dos efeitos especiais como um elemento essencial em sua trama. “Tron”, por exemplo, se aproveita da capacidade da computação gráfica para simular um ambiente virtual dentro de um vídeo-game, os efeitos especiais não apenas funcionam para dar fidedignidade à obra, mas como um simulacro dos gráficos geométricos e luminosos projetados pelas máquinas de arcade da época. O segundo filme da série “Exterminador do Futuro” também se aproveita dos avanços técnicos, capazes de criar um ser plasmático, para acrescentar ao filme um antagonista que ofereça todos os desafios planejados pelo roteiro. “Matrix” introduz, através da nova técnica “Bullet-time”, cenas de ações condizentes com o contexto da trama, onde os protagonistas lutam num ambiente virtual, manipulando as leis da física. Algo próximo ao feito por Christopher Nolan em seu filme “A origem”, onde a realidade é distorcida, via efeitos especiais, para simular um sonho.

Nos últimos anos, entretanto, a popularização e a acessibilidade – sobretudo financeira – aos efeitos especiais, mudaram o padrão de sua utilização. Filmes como “Transformers” – e cito aqui também os filmes apocalípticos – apesar de utilizarem os efeitos para tornar o roteiro possível, dão maior foco em cenas de exposição gratuitas, a fim de entreter o público com seus efeitos especiais. Ao invés de sustentar uma trama, os efeitos especiais tornam-se o centro da obra, chegando ao ponto de tornar-se excessivamente explorado, criando uma sensação de estranheza, como no filme “Mulher Gato” de 2004.

A nova trilogia dos “Planetas dos Macacos” parece divergir dessa visão, empregando os efeitos especiais de forma consciente, minimalista e completamente atrelada à trama dos filmes. Utilizando técnicas de motion capture, os produtores foram capazes de reproduzir os movimentos, as posturas e as mínimas expressões corporais e faciais de atores, as reproduzindo em macacos produzidos digitalmente. Deste modo foi possível  contar uma parte da história até então desconhecida, quando os macacos – fisicamente idênticos aos macacos existentes hoje – começaram a evoluir e formar a sociedade que tomaria a Terra séculos depois. Mas, além disto, a impressionante técnica de efeito especial, permitiu que macacos digitais tornem-se protagonistas de um filme, sem causar nenhum tipo de repulsa ou estranhamento. Os retratando nas mais diversas situações que o roteiro requeria, como andar à cavalo, utilizar armas e, sobretudo, envolver-se emocionalmente com outros personagens. A representações de emoções nos rostos dos macacos é extremamente fidedigna, sendo possível identificar situações da trama apenas pela leitura da feição dos personagens, muito dos quais não possuíam a capacidade da fala. É a melhor utilização dessa técnica, que já empregada em menor escala em outros filmes, como Senhor dos Anéis e Avatar. “Planeta dos Macacos: A guerra” é o ponto mais alto da trilogia neste aspecto, é um filme dramático sobre perda, superação, vingança e auto-descobrimento de um macaco, surpreendentemente crível e realista. Será, talvez, um novo marco da evolução da técnica em efeitos especiais e um novo capítulo desta relação tão íntima entre os efeitos especiais e a produção cinematográfica de filmes de ficção científica.

A técnica de Motion Capture empregado no filme, aliada à ótima atuação, permitiram que macacos digitais tornem-se extramente expressivos.