A importância (ou não) de definir uma obra como “ficção científica”: O caso de Star Wars

Sempre que um novo filme da série Star Wars é lançado uma antiga discussão retorna de sua hibernação: Afinal, Star Wars é, ou não, um filme de ficção científica? Uma discussão que sempre levanta os ânimos, sobretudo dos defensores desta tese, que compreendem sua discordância quase como um insulto aos filmes. Mas, ao invés de tentar responder esta pergunta, responderemos outra que ninguém fez: Qual a importância – se é que ela existe – em definir uma obra como “ficção científica”? Afinal, devemos perder tempo discutindo isso? Isso influencia a qualidade do filme? Levantemos algumas suposições.

Importância acadêmica

Não é todo mundo que se importa ou conhece o campo acadêmico da literatura ou do cinema. No fundo, definir academicamente uma obra como parte de um estilo ou corrente tem importância apenas para pesquisadores, produtores e curiosos da área. Mas sim, é importante. Enquadrar uma obra dentro de um gênero é útil para identificar e exemplificar as características gerais desse gênero. Permitindo que pesquisadores tracem as mudanças ocorridas ao longo dos tempos, as tendências e correntes dentro do gênero, sua contextualização histórica, a influencia de cada autor ou obra e etc. Isso é útil não apenas como forma de melhor compreender o gênero e seus impactos socio-culturais, mas também para que produtores de conteúdo compreendam melhor as características e a produção do estilo e consigam seguir uma determinada linha.

A classificação acadêmica não se limita apenas em traçar um perfil de conteúdos abordados, ela investiga e compreende, sobretudo, a forma pela qual a obra é criada e principalmente seu propósito. Os instrumentos narrativos, o ritmo, a forma em que o diálogo é exposto, a linguagem utilizada e, no caso do cinema, os enquadramentos, a trilha sonora, a mise-en-scène (aquilo que é colocado na cena), a iluminação, a mensagem a ser divulgada e etc. De maneira geral, ser enquadrado dentro de um gênero e ser recebido pela crítica como uma “boa obra” é garantia de que outros filmes do gênero sigam uma mesma linha de produção. A ficção científica, entretanto, é um gênero ainda pouco estudado dentro desta área acadêmica, sobretudo por ser compreendida mais como uma “temática” do que um estilo em si. Neste sentido Star Wars nunca foi compreendido academicamente como uma filme de “ficção científica” e sim como o  principal e mais expoente filme do movimento blockbuster. O que, obviamente, não lhe retira nenhum mérito, muito pelo contrário.

Importância comercial

Mas não é apenas academicamente que uma obra pode ser classificada, existe outro tipo de classificação muito mais próxima ao nosso cotidiano: as plaquinhas que separavam sessões das finadas locadoras, ou, num exemplo condizente com nossos tempos, as categorias da Netflix. Categorizar obras em diferentes gêneros tem uma grande importância comercial. Elas ajudam a definir qual é o público alvo, definindo aquilo que o consumidor deve esperar. Definir bem o gênero é fundamental para que o público não se decepcione com o obra, evitando assim prejuízos comerciais. Lembro-me bem dos bocejos e sussurros de reclamações durante a sessão de “The Witch” no cinema, um filme que se vendia enquanto terror, tendo elementos mais próximos do drama com suspense psicológico. A platéia que esperava sustos e cenas horripilantes se enfadou rapidamente ao ver um drama familiar. O mesmo ocorreu com “Mother!” um filme que se vendia como terror no trailer e era…. ok, não sei como classificar esse filme um filme bíblico? Decepcionando quem o assistia com a expectativa errada.

Quando se fala em categorizar uma obra, do ponto de vista comercial, é plausível e útil uma sobreposição de gêneros, sobretudo no cinema. Não é incomum filmes se venderem como uma “comédia – terror” ou “suspense – policial”. Neste sentido Star Wars sempre foi visto e vendido como uma “Aventura espacial”, ou “Space Opera”. Que nada mais seria uma um sub-gênero da ficção científica, que mescla seus elementos com os elementos da aventura. Neste sentido, dizer que comercialmente Star Wars funciona como uma space opera é dizer que podemos esperar que os filmes tenham elementos da ficção científica – mesmo sem uma estrutura narrativa própria dela – como o espaço, as tecnologias ainda não existente, o contato entre raças e a especulação, ao mesmo tempo que elementos de uma aventura cinematográfica, a jornada do herói, cenas de ação e perseguição, explosões, exploração de cenários, vilões icônicos e etc.

A não importância da qualidade

Quando se questiona se “Star Wars” é, ou não, uma ficção científica devemos, antes de mais nada, procurar especificar em que sentido estamos entendendo essa classificação. É para pensarmos nele enquanto uma estrutura narrativa e objetivos? Ou estamos falando apenas em temáticas? Qual a importância, afinal de tentarmos classificar uma obra como x ou y? Isso apenas fará sentido se nossa classificação for sucedida de uma análise contextual. O posicionamento e os diálogos estabelecidos por Star Wars dentro do campo da ficção científica ou dentro do mercado da ficção científica. Uma classificação nunca é auto-suficiente, pois, isoladamente, ela não nos diz nada.

Neste sentido tipologizar uma obra nada nos diz sobre sua qualidade. Star Wars não fica melhor ou pior se for considerado uma ficção científica. No fundo, acredito que toda a discussão vem da crença de que, se considerado uma ficção científica, os acontecimentos relatados são todos considerados críveis, dotando seus roteiristas de uma inteligência científica. Caso não seja uma obra scifi tudo não passaria de “pura fantasia”, rebaixando a qualidade imaginativa da obra. O que, no fundo, não passa de uma besteira e uma visão bastante restrita, que exclui por completo a compreensão do objetivo geral da obra. Será que Star Wars apresenta sons de explosão no espaço porque seus roteiristas desconhecem que as ondas sonoras não se propagam no vácuo? Ou porque seu objetivo enquanto um filme categorizado comercialmente como aventura e ficção científica requer cenas de ação que empolguem a plateia? Será que os “erros” científicos apontados não seriam apenas escolhas? No fundo, categorizar uma obra, seja ela qual for, é útil para nos dar ferramentas para melhor compreende-la dentro de seu contexto, mas completamente inútil para definirmos sua qualidade.